O Anjo que se fez átomo

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A História de um Anjo que se fez átomo

 Historia de um anjo 3

Obra escrita na primavera de 2017 e lançada em abril de 2019, pela Editora INEDE. As belíssimas ilustrações foram feitas por Viviane Pires. Segue abaixo o texto integral do trabalho, embora sem as belas gravuras da Viviane.

Encomendas: http://www.lojanovosrumos.com.br/historia-do-anjo-que-se-fez-atomo-a.html

Editora Inede: http://www.inede.com.br

   

A HISTÓRIA DE UM

ANJO QUE SE FEZ

ÁTOMO 

Texto: Gilson Freire

Ilustrações: Viviane Pires

 

A ti, que queres chegar,

Pôr um fim à finitude,

Vestir-te de angelitude,

Apenas o Amor albergar

E sobre ti mesmo a vitória,

Oferto-te esta história. 

 

 “Estavas no Éden, jardim de Deus, toda pedra preciosa era a tua cobertura. Tu eras querubim ungido. No Monte de Deus estavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti.” - Ezequiel 28:13-15
 
“É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo.” - O Livro dos Espíritos - Questão 540

Sumário 

Palavras Singelas
Canto Primeiro: Anjo Perfeito
Canto Segundo: Anjo Tumefeito
Canto Terceiro: Anjo Contrafeito
Canto Quarto: Anjo Desfeito
Canto Quinto: Anjo Imperfeito
Canto Sexto: Anjo Sendo Refeito
Canto Sétimo: Anjo Homem-Feito
Canto Oitavo: Anjo Aceito
Canto Nono: Anjo Eleito
Canto Décimo: Anjo Outra Vez Perfeito
Desfecho Sem Querelas 

Palavras Singelas

 “É da Lei que a besta se transforme em Anjo.”
Pietro Ubaldi (A Grande Síntese)

 Amigo leitor,

Apresento-te um pequeno trabalho de natureza inspirativa escrito em nossas reuniões de meditação no Centro de Estudos Ubaldianos, dedicado à análise e divulgação da obra de Pietro Ubaldi, em Nova Lima, Minas Gerais.

Foi composto de forma rápida, como algo pronto, em um processo de captação de correntes noúricas (correntes de pensamentos), passível de percebermos em estado de silêncio interior. A despeito de imputar-lhe uma indiscutível fonte indutiva, além de meu próprio intelecto, não posso, em sã consciência, aferir-lhe irrefutável legitimidade. Seu fluxo de ideias perpassou pelo meu filtro psíquico, contaminando-se, inevitavelmente, com o meu próprio linguajar e minha interpretação pessoal. E devo confessar que, ao relê-lo, invade-me a nítida sensação de que minha patente insuficiência terminou por reduzir e mesmo eivar sua originária beleza.

Trata-se de um poema narrativo, dividido em dez cantos, cujo principal escopo é desfiar conceitos essenciais à nossa alçada evolutiva e não apenas aferir fluidez agradável à leitura ou elegância a uma preleção tecida em rimas. Ele se propõe a contar, em forma de versos, a grande jornada da alma, desde sua criação no Seio Divino, passando pelas suas manifestações no plano da matéria densa até atingir o seu destino final: o retorno ao seu ponto de partida, o Lar Paterno. Uma história que diz respeito a todos nós que habitamos o Relativismo. Podemos, por isso, caracterizá-lo como o Poema das Origens e dos Fins Últimos de Nossas Vidas. Seu enredo embasa-se, especialmente, na catedral de pensamentos erigida por Pietro Ubaldi, para a qual remetemos o leitor interessado em examinar mais detidamente os pilares que a sustentam.

Se a partir dessas lições, passares a encarar com seriedade as questões que o poema nos suscita; se a busca pelos fins últimos da vida vier preencher todos os teus anseios, acima dos interesses mundanos; se te convenceres de que, por estigma de origem, um anjo verdadeiramente mora em teu interior, e, enfim, dispuseres, com todo o empenho, a trazê-lo à tona, então o nosso papel terá sido cumprido, e tua conquista será a nossa maior recompensa.

Que a Divindade que reside em nós, reacenda-se sem demora.

Nova Lima, primavera de 2017

Gilson Freire

Canto Primeiro

Anjo Perfeito 

Filho meu, uma breve história vou contar-te,
Breve, porém a mais importante das histórias.
Tanto que mora no âmago de todas as memórias.
Para, escuta, toma parte.
Vou narrar-te em detalhes, com todas as veras.
Ela vem de longe, muito longe,
Tanto que o tempo ainda não escorria pelas eras.
 
Um dia, antes do Princípio, muito antes,
Quando os dias até então não se levantavam,
Nem mesmo as noites sobre os dias se derramavam
E ainda não existiam lugares distantes,
Em meio a Luzes Esfuziantes,
Deus criou um Anjo,
No mais formoso arranjo.
 
Entretecido nos fios do ilibado Amor,
Era do seu Genitor uma parte.
Moldado pelas mãos do Divino Escultor,
Era uma sublime obra de arte.
Muito mais que singelo,
Era majestoso, era belo, muito belo.
 
O Criador vestiu esse Anjo com o Seu puro pensamento.
Era o único que possuía para compor seu paramento.
E assim o Anjo se fez sem vestes, formas ou nada mais.
Dotado, porém, de todos os infindos e excelsos cabedais,
Como um autêntico Filho do Divino deve ser.
Feito de seu Pai, à semelhança,
Por em Sua Própria Substância se entretecer.
 
Ele não tinha limites, contornos não admitia.
Formas, assim como o Seu Pai, tê-las não podia.
Desenhado com linhas do Infinito e cores do Eterno,
Não era nem grande, nem mesmo pequeno,
Pois tamanho não consentia, era pleno.
Sendo a imagem do Divino, era o semblante Paterno.
 
Dizem que os Anjos têm asas, é bem verdade,
Mas, criado sem feitios, suas asas eram alegóricas.
Asas do Amor, asas do Poder, conferindo-lhe liberdade.
Evolava-se pelo Ilimitado, sobre Paisagens Pictóricas,
Sem fronteiras, sem distâncias, sem alarde.
 
Ele nascera pronto e acabado, com esmero e primor.
E todas as potências do Criador herdara por amor.
A Eternidade em seu coração pulsava.
Sem pretérito e sem futuro, seu tempo não passava.
O badalar das horas seus ouvidos não perturbava.
 
Não fora gerado como a semente de um ser,
Sementes de seres requerem eras para crescer.
Ora, Deus só cria Filhos sob o signo do Sempiterno.
Seu Mundo, seu berço, era o perene Jardim,
Fora do tempo, sem começo, sem meio, sem fim,
Onde é eterna a primavera,
E o inverno é uma quimera.
 
Fora criado pleno, tudo podia, tudo sabia,
Nada lhe era mistério no Mundo em que vivia.
Possuía em si a Onisciência do Criador.
Da sabedoria, era o divino embaixador.
 
Herdara de Seu Pai também o atributo da Onipotência.
Seu poder era imenso, de incomparável abrangência.
Mais poderoso que todo o poder do Universo,
Porque na força do Criador estava imerso.
Poder sem limites, oriundo da Sagrada Substância,
A fluir de Deus, inteira a seu dispor.
Possível era criar o que quisesse compor.
 
Diluído na Imensidão, sem se limitar,
Ele detinha a Onipresença.
Em todos os lugares ao mesmo tempo estar
Era sua marca de nascença. 
Tudo presenciar, o Infinito preencher,
A vastidão sem fim num átimo percorrer,
Fora do espaço, além das dimensões,
Sem pontos, sem demarcações.
 
Era livre, livre para amar e aceitar o Amor Divino,
Mas também para negá-Lo e escolher o seu destino.
Seu Pai não desejou que O aceitasse por sujeição.
Não podia ser um autômato, sem direito de eleição.
Sem isso, não seria de Deus um Filho genuíno.
 
Apesar de possuir o saber preternatural, a Ciência Infusa,
O total e completo conhecimento Seu Pai lhe recusa.
Ignorava os efeitos do livre-arbítrio mal-empregado.
Usar sua liberdade como desejasse não lhe era negado.
Era seu direito, ele era um deus, isso o Pai lhe ofertara,
Mas o Criador, do imenso perigo que corria, lhe avisara.
  

Canto Segundo

Anjo Tumefeito 

O Pai o criara, mas de seu fado,
Seria ele mesmo o artesão.
Viver sob o Paterno cuidado
E aceitar Sua Lei por espontânea adesão.
Ou impor à Ordem a sua própria vontade,
Era possível tal inconcebível veleidade.
Sua escolha teria de ser feita com liberdade,
Pois livre, como um deus, fora gerado.
Não podia coagi-lo o temor de ser reprovado.
 
Ele escolheu a última opção,
Sem compreendermos a razão.
Dominar os Jardins do Paraíso,
Para sua felicidade, não era preciso.
 
Entre os irmãos, ser o principal foi o pretendido.
E o caminho do desamor pareceu-lhe o preferido.
Como pôde? Ele era senhor de suas ações,
E fez sua escolha sem recriminações. 
 
Quis tornar-se o primeiro, o rei,
No Perfeito Mundo da Perfeita Grei,
Tal pretensão estava proibida.
Era uma opção descabida.
 
Ser ainda mais ditoso do que era,
E muito maior do que Deus propusera,
Como se isso fosse possível, afinal,
Foi um ato de orgulho,
Um impróprio marulho,
Chamado de Pecado Original.
 
Equivocado nesse indevido movimento,
De exagerado e descabido crescimento,
Ele imprimiu no campo de expressão
Que, por herança, carregava consigo,
O exato oposto, ou seja, imensa contenção.
Não propriamente como um castigo,
Mas, ante a Lei, a justa e merecida reação. 
 
Canto Terceiro

Anjo Contrafeito 

O resultado não foi o esperado.
O Infindo que o vestia,
Ateve-se nas curvas do espaço.
O Incontido que o expandia
Estreitou-se na estreiteza de um traço.
 
A Eternidade que o esplandecia
Fracionou-se no tempo entrecortado.
A pura Substância que o tecia,
Fechada em si, tornou-se matéria.
O Anjo apequenado, atormentado,
Meu Deus, que grande pilhéria!
Que imenso prejuízo, que coitado!
 
Afinal, foi uma grande falência,
Pois, ao ricochetear no escudo da Lei,
Como inesperada consequência,
Colheu o exato oposto do planejado.
Do crescimento exagerado,
Terminou do outro lado.
Seu poder prendeu-se em ponto diminuto.
Adquiriu massa, forma, fora do Absoluto.
 
Pesado, precipitou-se do Campo Divino,
Apartou-se do Altíssimo. Que desatino!
Foi uma ilusão que dele se apossou,
Uma mera e inútil possibilidade,
Que para ele pronto se consolidou.
Existir fora de Deus, não se pode, é verdade.
 
A divindade estreitou-se em eixo rodopiante.
Ele é um ínfimo grão de areia, aviltante.
Nas volutas girou,
Asfixiante, angustiante, que alarmante.
No Nada se prensou,
No Vazio se avolumou.
 
Mas de seus atributos originais,
Absolutamente nada ele perdeu.
Tão poderoso quanto antes, permaneceu.
Só não pode mais usar seus poderes divinais.
 
Contido por forças físicas, sucumbiu em veraz túmulo.
Meu Deus, que lamentável, que sombroso cúmulo!
Desde então tornou-se a semente de um deus,
Semeado no campo da matéria, o abismo rotundo,
O mais profundo.
Que triste paradeiro,
Deve agora crescer, livrar-se do atoleiro,
Respirar de novo a Plenitude, o Sopro Verdadeiro.
 
Oh! Como caiu tão fundo, o Anjo infeliz.
Tão fundo porque imenso era o poder em sua raiz,
Poder tão escomunal que tão intenso o contraiu.
O Inefável se fez matéria, massa adquiriu.
Abrasado nas férvidas atmosferas,
Opresso no negro vórtice das priscas eras.
 
O Anjo inditoso, no entanto, não estava só.
Infinidade de outros o acompanhou.
Foi uma parte do Infinito que se despedaçou.
Tomaram como ele o impróprio caminho do pó.
Prenderam-se no mesmo nó,
Um ponto assaz conflitante.
Todos, contraídos, desabaram no mesmo instante.
Densidade infinita, tamanho nulo, o átomo primordial,
Assim espremidos, num funil umbroso e colossal.
 
A contração deteve-se no ponto restrito,
A máxima estreiteza possível ao Infinito.
Reverberou sobre si mesmo,
A Substância que a todos entretece.
Expandir novamente é indispensável,
Ainda que balance a esmo.
Buscar novo equilíbrio agora carece
Para instabilidade tão indesejável. 
 
Na intimidade de cada Anjo, súbita expansão se fez.
Forças descomunais à procura de nova acolhida.
Então um outro universo é gerado com rapidez.
Ao tal Big bang foi imputada essa obra invertida.
 
O tempo nasceu nesse dia.
Sim, ele que não existia,
Fora então concebido.
Noites e dias, dias e noites,
Ritmo descabido.
E sofrer das horas os acoites.
 
A Eternidade fracionada,
Na urna do tempo confinada.
O presente fugaz,
Um átimo que pronto se desfaz,
Sempre à espera do futuro,
Que enorme apuro.
 
O alastrar-se do tempo tudo agita,
Tudo excita,
Tudo devora,
Para tudo tem hora.
Já é nova aurora.
Que tormento, que grande castigo,
Que cabal inimigo,
Nada escapa desse artigo.
 
As forças contidas, agora em expansão,
Não mais se detiveram.
Aflitas, buscam volver então
Ao Infinito de onde vieram.
Constritas, contrafeitas,
Querem voltar ao Ilimitado de que são feitas.
 
Explosão que ainda infla cada qual, por graça concedida.
Por força de Lei, era uma determinação permitida.
Afinal, o desejo de todos precisava ser aceito.
Tal, contudo, não era possível no Mundo Perfeito.
A celeuma na ordem do Paraíso estava proibida.

 

Canto Quarto

Anjo Desfeito 

O cosmos que ora te alberga, assim nascia.
Basto, denso, enlaçado no espaço, agora existia.
Pesado e firme, ainda que ilusório.
Encarcerado no tempo, escuso, transitório.
 
Terminou invertido, desfeito,
Sua marca é o contrafeito.
Uma doença no seio da Divindade.
Só o tempo pode devolver-lhe a sanidade.
 
Fornalha no início se fez, estupenda.
Fogueira abissal, tremenda.
Incandescência negra, surda.
Imprópria à vida dos Anjos, absurda.
 
Um estranho universo, adverso,
O verso do Uno, reverso, submerso.
Exótico, disperso, contorcido,
Em pura matéria entretecido. 
 
Uma Queda nada mais que dimensional,
Gerou valores impróprios ao Mundo Original.
Um grande mal, descomunal, avernal.
A pura Substância maculou-se com o imperfeito.
Lamentável, mas o mal já estava feito.
 
Caos, turbilhão, nos estreitos espaços vorticosos.
Hecatombe dos amotinados, conflito dos revoltosos.
Desordens, abismos negros, caminhos tortuosos.
O Céu que se apequenou, perdeu sua cor.
A Eterna Primavera agora lacerada pelo inverno.
O Perene embrulhado, estilhado, subalterno,
Curvado no espaço, perdeu seu fulgor.
 
Não digas, portanto: Deus criou o mundo nesse dia.
Deus, que é o Amor verdadeiro, a Impecável Sabedoria,
somente pode criar com Perfeição, na Eterna Glória.
Não cometas tal heresia, não acredites nessa história. 

 

Canto Quinto

Anjo Imperfeito

O Anjo átomo se fez.
De inopino, rompeu-se sua altivez.
Ponto rodopiante se tornou.
Coalescido em forças indômitas, expirou.
Cobriu-se de partículas,
Luz presa em gotículas.
Um apertado amontoado,
Denso e pesado aglomerado.
 
Na matéria eclipsada, encontrou sua morte.
No túmulo físico, perdera todo o seu porte.
O grito calado, enlanguescido,
O brio turvado, extenuado.
O orgulho alquebrado, acuado,
O ego desvalido, combalido.
 
No rodopio das vertigens, rodopiou.
Cada vez mais rápido, à medida que se estreitou.
Na fervura dos vórtices atômicos,
No tumulto dos elementos agônicos. 
 
Nos cernes dos mundos, em torno dos sóis,
No bailado gigante das galáxias, nos siderais crisóis,
Segue embriagado por si mesmo, um ébrio bailarino.
Próton, elétron, nêutron, fóton, neutrino.
Girar, cada vez mais depressa, na atônita dança,
À deriva na massa vertiginosa, a esmo avança.
 
Respirar a respiração do Todo,
Renovar-se e chafurdar-se no lodo.
Preso no ritmo das oscilações,
Alterna contrações e expansões.
 
Atado aos ciclos inquietos,
Não há outros trajetos,
Até que em seus embalos esgote,
Da Queda Preludial, o rebote.
 
No aprisco das eras, sem norte,
O Anjo contraído perdeu seu sossego.
Experimentou o “não-ser”, a morte,
Ao privar-se do Divino Aconchego.
E a consciência que antes lhe era plena,
Dormita agora nos porões da pávida Geena. 
 
Misturado no emaranhado descomunal,
A angústia da perda de suas forças não tem igual.
Ele, que dominava céus e mundos, era gigante,
Agora é um mutante, acachapante, chocante.
Ele que tudo sabia, entre os sábios, exuberante,
Fez-se então simples e ignorante.
 
Apequenou-se o seu ser, do pó é cativo,
É poeira de estrela, defectivo, retrativo, semivivo.
Debilitado, o temor de tudo e de todos o acossa.
A estreiteza dos limites o destroça, endossa.
Ele, que não conhecia paradeiros,
Preme-se agora entre despenhadeiros.
 
Esvaiu-se a amorosa presença de seu Pai.
Parece-lhe agora ausente, eco distante,
A ribombar no silêncio aterrorizante.
A mão de Deus que aparente se retrai.
 
O vazio da lúgubre solitude,
Agora o espreita.
O abraço da torva negritude,
Agora o estreita.

  

Canto Sexto

Anjo Sendo Refeito 

No grande oceano do tempo, onde se perdeu,
O Anjo soçobrou, mas não morreu.
O Pai “não quis a morte do pecador”,
permanece junto dele como impulso salvador.
Sofre-lhe, até hoje, as injunções da Grande Queda,
Jamais o abandonou, dele se apieda.
 
Seu Pai agora é Lei, imperceptível, diligente,
Mas inviolável e previdente, insuprível e abrangente.
Silenciosa, mas jamais se cala em sua intimidade.
Quer fazê-lo novamente grande, a salvo da dualidade,
Quer integrá-lo outra vez na Transcendente Unidade.
Almeja, sobretudo, trazê-lo de volta ao Aprisco do Amor,
Seu Paraíso Perdido, no Divinal Seio Abrasador.
 
Sua Lei agora chama-se Evolução,
O longo caminho de volta à Primeira Mansão.
Lei de retorno, Lei de refazimento.
Urge recompor seu originário valimento.
E depois de tamanho tumulto gerado,
Tudo deve ser de novo ordenado.
 
Crescer novamente é tudo que anseia.
A Lei agora é sua indispensável candeia.
Ela lhe ensina a contornar os obstáculos da rota,
A se reerguer ao fim de cada derrota.
Depois de cada destruição, a se refazer,
Após cada morte, outra vez nascer.
 
No aluvião dos primevos elementos refertos,
Ensaiou os passos iniciais, hesitantes, incertos.
Primeiro foi pedra. E na pedra pesou.
Nas formas cristaloides por milênios repousou.
 
Depois foi planta. Raízes, galhos, folhas, frutos.
As primeiras sensações da vida nos orgânicos redutos.
Na alquimia da clorofila, captar um raio de sol.
Aprender novas construções no verde crisol.
 
E sob os auspícios da Grande Lei de Evolução,
Não tardou a se fazer animal, inigualável revolução.
Barbatanas, patas, asas, olhos, novos paramentos,
Por Graça Divina, a liberdade dos movimentos.
 
Na rica experiência dos instintos,
Das sombras os traços extintos,
Sua inteligência oculta renascia.
Com rapidez agora resplandecia
A consciência até então retraída.
E sorria a alma outrora abatida.
 
Na longa e laboriosa jornada do progresso,
Veste-se de corpos e mais corpos, grande sucesso.
O amálgama orgânico, modela a gosto.
Novas possibilidades para novas formas, tudo bem-posto.
Músculos, couraças, garras, chifres, dentes.
Táticas de ataques certeiros, fugas diligentes.
 
A química do veneno, a arte do disfarce.
De tudo, além do necessário, apossar-se.
O roubo é lícito, vence o mais forte.
O fraco já não tem tanta sorte.
Matar ou ser morto, devorar ou ser devorado.
Sua vida agora é uma arena de combate acirrado.
 
Que grande dissabor,
Evoluir é um imenso labor,
Uma batalha soez, cruel, não há clamor.
Disputar territórios, a primazia da reprodução,
Então ele conheceu a dor, a abjeção.
 
Seu Mundo é o inferno das rivalidades.
Sem clemências, não existem amenidades.
Para não morrer, é permitido matar.
Lutar ou fugir, não há como se isentar.
Aos olhos do Bem, um enorme mal,
É porém, a Seleção chamada Natural. 
 
É verdade que a Natureza é zelosa,
Dá-lhe a bênção da vida,
Condições para a sobrevida,
Mas é também mãe impiedosa,
Que o expõe à morte desonrosa.
 
Quando todos são contra todos,
A vida é assaz perigosa,
Uma aventura assombrosa.
Viver torna-se um triste regime,
Quando matar não é crime,
E em tudo falta o Amor Sublime.
 
O Pai o criara no Seio da Concórdia,
Imerso em Sua Deífica Misericórdia.
Sob a aragem da Paz Celestial,
Seu berço, da Felicidade, era o Manancial.
 
Com a Queda, seu Mundo, todavia,
Tornou-se o Império da Selvageria.
Chamado então Mundo Primitivo,
É o Principado das Trevas, é defectivo.  
 
Um Plano dominado pelo Mal.
Que Anjo malfadado!
Mas, toma cuidado!
Não imputes tal Reino Abismal,
À criação de Deus, como obra de Seu Amor.
O Mal exala de cada Anjo decaído, nunca do Criador.
Tamanho absurdo, mais uma vez, não convém.
Nosso Pai jamais se serviria do Mal para ensinar o Bem. 
 
Canto Sétimo

Anjo Homem-Feito 

No interminável bramir das eras,
Enfim, fez-se homem a fera.
Sobre o instinto, a razão se impusera.
O fruto do desamor, porém o acompanha.
Por caminhos aclives, o temor o acanha.
 
Ele segue assombrado, descontente.
A insegurança é companheira permanente.
O gemer das sombras o atemoriza.
Um descabido medo o paralisa.
Noites escuras, povoadas de fantasmas.
Assolado por hediondos miasmas.
 
Tudo agora lhe é ameaçador.
O rugir das feras, o ribombar das tempestades.
Uma natureza matizada de hostilidades,
É sobremodo sinistro, é assustador.
 
O frio que enrijece, onde o fogo para se aquecer?
Tudo somente para conhecer e ascender?
Não seria preferível o torpor?
O mundo é terrível! Que Pavor!
 
Ele se pergunta, indignado:
Onde está o berço certo e seguro,
Que seu Pai haveria de lhe ter preparado?
Se Ele o fez tenro, frágil e puro,
Ao seu lado não deveria ter ficado?
Então, a deuses menores ele confia
Sua segurança em sua árdua porfia.
 
Envolto na ignorância, ele não tem mais a noção
De que retirar-se do Todo foi dele a opção.
Deus, embora não tenha se afastado jamais,
Percebê-Lo com clareza, ele já não pode mais.
Vive a ilusão de que foi abandonado,
E a qualquer hora pode ser aniquilado.
 
Foi o que para si mesmo, no entanto,
Ele terminou por medrar.
E com seu esforço e seu pranto,
Deve agora então se livrar.
  
Na longa noite dos milênios,
A alma, enfim, semidesperta,
Segue agora uma estrada aberta.
Conquista conhecimentos e culturas
Nos ensejos de frutuosas vilegiaturas.
 
Não trilha, contudo, um caminho reto.
Persegue bens que sempre se desvanecem.
São miragens nas areias de um deserto,
Que sob as ondas do tempo fenecem.
 
Até suas obras de pedra os séculos esmoem.
“Acumula tesouros que as traças corroem,
Os ladrões roubam, a ferrugem consome”.
É preciso prover o futuro, maltrata-o o temor da fome.
Ajuntar, estocar, amontoar, lamentosa ganância.
Ele olvida que de Deus é herdeiro da abundância.
 
O esplendor que antes o vestia,
Pálida sombra fez-se agora.
Títere que perambula pelo mundo afora,
É a penumbra de um deus que se angustia,
Preso no corpo de um animal.
 
 
Sua provisória roupa carnal,
Destinada ao leito sepulcral,
É mero farrapo de angelitude,
Imprópria à Divina Pulcritude.
 
Deve ser consumida no buril da evolução.
Para essa indeclinável dor não há solução.
É preciso que o envolva, para as Bodas Celestiais,
Nada mais que as diáfanas Vestes Nupciais.
 
Para ele, tudo que existe é seu universo
E o Reino Etéreo é algo controverso.
Curta visão que apenas lhe retarda o passo
E o prende à vil matéria, ao mundo devasso.
 
Sem saber que a carne é fruto de um Motim,
Vive a ilusão de que somente nela pode existir
E que a morte do corpo é de tudo o fim.
Não reconhece que sem corpos pode subsistir.
Que agonia o triste temor do nada!
A alma nas formas perecíveis sempre atada.
 
Da Eternidade é o real herdeiro,
E mergulhado no Divino Pensamento,
Ele nunca segue incerto roteiro.
Nem mesmo depois de seu passamento,
Pois, continua nutrido pela Seiva Eterna,
E no vazio, no nada, ele jamais aderna.
 
Persiste, no entanto, no espaço-tempo sempre preso.
Mesmo no Além, no corpo sutil, permanece adeso,
Pronto para nova reencarnação,
Até o dia de sua completa libertação,
Livre de envoltórios, na Gloriosa Ressurreição.
 
Cansado da dura luta pela sobrevivência,
No interminável trescalar das eras,
Ele desejaria repousar, livre da violência,
Nos campos seguros das Elísias Esferas.
 
Nas garras soezes do Mal, porém, persiste.
Da prática da barbárie, ele não desiste.
E nos tremendos embates, se é alvo de crueldades,
Vê-se no direito de também cometer atrocidades.
 
Seu destino, todavia, agora é sua responsabilidade.
Então segue a via da expiação, sem dó, sem piedade.
A colheita do mal praticado é obrigatória,
Não há rota de possível escapatória.
 
Vergado sob o guante de ações delituosas,
Colhe misérias, epidemias, guerras, vidas pavorosas.
Do Bem está distante, no Mal se compraz,
Por isso, até hoje, não conhece a almejada Paz.
 
Enfim, no curso das humanidades, 
Na vivência de ricas oportunidades,
Recobrou parte de sua consciência,
Pela Queda enegrecida.
Depois de ingentes esforços, na dura experiência,
A animalidade esmaecida.
Ante enormes desafios, sua inteligência se avultou,
Permitiu-lhe o desenvolvimento da Ciência.
Destarte, o véu dos mistérios só uma ponta levantou.
 
De sua lamentável e imprópria situação,
Tem, agora, uma imprecisa percepção.
Suspeita ele que se encontra em pesaroso exílio
E experimenta a premente necessidade de auxílio.
 
Aprendeu a inquirir, mas lhe escapam as respostas.
Grandes incógnitas continuam lhe sendo impostas.
Não se lembra mais do dia em que nascera,
Sequer do Excelso Amor que o abastecera.
Não sabe mais que é um deus, Filho do Todo-Poderoso.
E para onde deve ir, é-lhe, sobretudo, duvidoso. 
 
Canto Oitavo

Anjo Aceito 

No entanto, Filho meu, ouça bem!
Tu és o Anjo que caiu do Céu.
Sim, foste tu o infiel.
Verdade maior que essa não tem.
 
Esta é a tua história,
Tua oprobriosa trajetória.
Acredita sem demora.
Remove de ti o orgulho.
Atira para longe o atulho.
E recordar-te-ás do que fora outrora.
 
Sim, és o Anjo que de revoltas se vestiu.
Escuta o que a Grande Voz da Vida te diz:
És aquele que da Vida Real partiu,
Provéns do Aprisco Iluminado, da Divina Matriz. 
 
És o legado da Luz, mas de Trevas te cobriste.
Justo que conclames, com o dedo em riste:
É um absurdo, não cometi tal ato!
Ou que te envergonhes do fato,
Afirmando: Isso não pode ser!
A verdade, destarte, é que dos cimos do Absoluto,
Foste capaz de descer,
E a oferta de Amor de teu Pai, negaste, resoluto.
 
De longe, de muito longe, vens.
Sob a avalanche dos milênios,
Estiveste no abismo negro dos proscênios.
Rodopiando nas voragens das hecatombes nucleares,
Abrasaste teu ser no seio dos fogos estelares.
 
Foste amálgama, cativo de vórtices frenéticos,
Adustos cenários, entre vazios solitários.
Vagueando, cataléptico,
Sorvido por galácticos estuários,
Na vastidão das titânicas eras,
Antes do despontar das moneras. 
 
Sim, és o “Anjo que começou por ser átomo”,
Como muito bem te ensinou a Revelação.
Agora completas tua compreensão.
Viste apenas uma parte de tua longa história.
Antes de ser átomo, eras grande, na Inefável Glória.
Deus não te prendeu no cerne atômico como vil escória.
Foi tua imprópria e indevida vontade,
Que te fez perder a Excelsa Potestade.
 
Não te surpreendas com tal estupenda afirmativa.
Para provar-te essa inquestionável assertiva,
Insistiram todas as eras e todas as revelações.
Não foi o que afiançou o Cristo em Suas pregações?
 
Até hoje, porém, relutas por aceitar sua legitimidade.
Ela constrange teu orgulho, fere tua vaidade.
Desonra-te ser um Anjo caído.
Gostarias de ser nada mais que um filho querido,
Que Deus remeteu ao mundo dos aflitos,
Ao mundo dual dos conflitos,
Da dor, da morte, da imperfeição,
Unicamente para a sua edificação.
 
Jesus aos teus ouvidos disse bem claro
Que és um filho pródigo vivendo ao desamparo,
Um morto entre os mortos, uma ovelha perdida,
Que precisa, a todo custo, ser socorrida.
 
Que o ego atroz e ardiloso deves sufocar,
E dos falsos prazeres deste mundo, abdicar,
Os interesses impiedosos, aplacar,
As falaciosas alegrias do orgulho, inibir,
E toda e qualquer maldade, depressa coibir,
Fazendo renascer em teu coração o Amor ideal,
Para assim retornares, de pronto, ao Mundo Real.
 
Seu Evangelho Redentor anunciou-te,
Com clareza, o caminho da Salvação.
Com empenho, Ele mostrou-te
A realidade maior da Ressurreição.
Tudo, no entanto, foi em vão.
Que enorme e contrita decepção!
 
As palavras do Divino Pastor,
Semeadas com tanto ardor,
Sopram como vento no deserto,
Sem ouvidos que as ouçam, decerto.
Sem olhos que as vejam de perto.
Enquanto não aceitares o inquestionável fato
De que és Anjo falido, expulso do Deífico Abstrato,
Não estarás pronto a reassumir o Divino Mandato. 
 
Alegas que não te lembras, resoluto,
Que nos Jardins do Éden estiveste um dia,
Negando que, por um desejo assaz dissoluto
E tomado de tamanha e indigna ousadia,
O Amor de Deus tenhas rejeitado
E o Paraiso, por vontade própria, deixado.
 
Oh! Como é triste não recordar algo tão extraordinário.
Teu olvido, no entanto, é ilusório, é temporário.
Essa doce lembrança jamais se desfez.
Cala o grito estridente da altivez,
Do teu orgulho, os surdos estertores,
Do teu ego, os inúteis clamores.
 
Então ouvirás, com clareza,
Adormecida no leito de tuas mais santas recordações,
A verdade que, com pureza,
Canta-te na acústica da alma as mais lindas canções,
Recobrarás a doce lembrança do Reino Eterno
E, outra vez, sentirás o inefável aroma do Seio Paterno.
 
Não denotas que és feito de insupríveis desejos?
No fundo, sabes que perdestes valores imperecíveis:
Perfeição, Ordem, Paz, Felicidade, bens inacessíveis
Que só pode ofertar-te o Mundo dos Sublimes Ensejos. 
Move-te, por isso, a indizível nostalgia
De haver experimentado um dia
O néctar dos deuses, a seiva da Eterna Vida.
Tua alma falar-te-á, se for ouvida.
 
Ouça o seu brado, inquieto, infeliz.
Ela, sem palavras, com insistência, te diz:
És um anjo desgarrado de sua origem,
Portando males que só as dores corrigem.
És um pleito genuíno pela Infinitude,
Que só a união com Deus tornará à completude.
 
És um cântico inestancável por Liberdade,
Que só o progresso transformará em realidade.
És uma ânsia infrene pela primaz Beleza
Que só a expiação te dará, ao livrar-te da impureza.
És uma súplica inexaurível pela eterna Bem-aventurança
Que só a prática do Bem consolidará como tua herança.
És um frêmito incansável por Amor
Que só a plena capacidade de amar te fará merecedor.
 
Se abafares teus soezes gritos de dor,
Se silenciares teu lamento abrasador,
Recordar-te-ás que és de Deus um Filho Amado,
Herdeiro do Excelso e Inesquecível Primado. 
Verás que Ele te vestiu da Luz que alumia
E não da Treva que a todos angustia.
Que te deu por Lar o Império do Bem
E não Sombras que a ninguém convém.
Foste criado para a Felicidade Eterna,
Em uma existência plena e fraterna.
Para a Vida e não os tormentos da morte.
Para a Esplendor e não os caprichos da sorte.
 
Para a Alegria e não a coerção da dor
Que agora te impinge.
Para a Liberdade e não a prisão da carne
Que tanto te restringe.
Para a Plenitude e não a pequenez
Que hoje te cinge.
Para a Abundância e não a escassez
Que ora te constringe.
Para a Concórdia e não o pleito
Que então te atinge.
Para o Amor, o Amor perfeito,
Muito mais que perfeito. 
 
Acredita, teu Pai Piedoso,
Sábio e sempre amoroso,
Não te pôs no Inferno ao nascer.
Criou-te por Amor,
Para com o Amor te abastecer,
Unicamente com o Amor te aquecer,
Nada mais que com o Amor te embevecer,
Somente no Amor te enobrecer,
Apenas com o Amor te esplendecer,
Exclusivamente no Amor te engrandecer.
Para que pudesses de ti ofertar
Todo o Amor que teu coração pode doar.
E no Amor, só no Amor, te acrisolar. 
 
Canto Nono

Anjo Eleito 

Se queres, ante tudo, agora,
Volver ao Reino da Eterna Glória,
Faz o que Jesus te exora.
Que te convenças de tua imaculada origem, primeiro,
E depois te aposses do anseio pelo retorno, por inteiro.
Que abandones teus desejos falsos
E não te detenhas nos ingentes percalços.
 
Que te desapegues da ilusão das formas
E não olvides as necessárias reformas.
Que sacrifiques teu apego mundano
E despedaces a cortina do ego profano.
Que te desfaças no oceano do Amor
E então recobrarás a Alvura de teu Primor.
 
Por que, sem titubear, não te decides?
Por que não abandonas as profanas lides?
Deixa tuas tristes e amargas clausuras
E alça o voo rumo às Excelsas Alturas.
 
Tuas asas de Anjo não se perderam.
Em teus ombros, apenas se recolheram.
Cada uma delas já está pronta,
Só não te deste ainda conta.
Continuam incólumes, ilesas.
Guardam ainda suas originárias belezas.
 
Entrementes, atarantado,
Temes pairar sobre as Planícies do Ilimitado.
Acredita! Basta desfraldá-las, impávido.
Sorve o mel do Amor e alça voo, inquebrantável.
Mira no céu de teu coração a Luz fulgurante
E transporás no átimo de um instante
O abismo que te aparta do Incomensurável.
 
Julgas que estás muito longe do Reino Inefável.
Inalcançável no célere revoar dos séculos,
Depois das últimas estrelas, além dos pináculos.
Enganas-te, teu jugo não é confiável.
 
Está bem próximo o Edênico Redil,
Muito mais do que consente a tua crença.
De teu íntimo, jamais se evadiu.
Por irrevogável sentença,
Está na tua própria essência.
De teu ser, a Imanência,
A Divina e Eterna presença.

 

Canto Décimo

Anjo Outra Vez Perfeito

No fim da jornada rumo a ti mesmo,
Teu Pai te aguarda.
Para que apresses e não andes a esmo,
Sua Voz, insuprível, brada.
 
Ele anseia ver-te por inteiro refeito,
Vestido de Luz, outra vez perfeito,
Livre de todo e qualquer Mal,
Da imperfeição, nenhum sinal,
E só para o Bem integralmente feito.
 
E “quando te avistar”, por certo,
Ao teu encontro irá se precipitar,
Para em Seus braços te apertar bem perto
E em Seu Amor para sempre te estreitar.
 
Por que a demora?
Volta, filho! Volta, agora!

 

Desfecho Sem Querelas

“Então, muitos ‘deuses’ menores, feitos de Substância Divina, livremente decidiram tornar-se ‘Deuses’ maiores, iguais a Deus. A escolha foi por eles feita, e o Universo, abalado até os fundamentos que estão no Espírito, estremeceu e parte dele desmo­ronou, involvendo na matéria.” - Pietro Ubaldi (Deus e Universo)
 

Para muitos, sobretudo os leitores espíritas, poderá parecer que esta pequena obra se evade dos fundamentos que regem a Doutrina dos Espíritos. Apresentamos, porém, a seguir, três citações que, inquestionavelmente, corroboram as ideias aqui desenvolvidas:

1) Em O Livro dos Espíritos podemos ler, na questão 1009: “Pobres ovelhas desgarradas, aprendei a ver aproximar-se de vós o Bom Pastor, que, longe de vos banir para todo o sempre de sua presença, vem pessoalmente ao vosso encontro, para vos reconduzir ao aprisco. Filhos pródigos, deixai o vosso voluntário exílio; encaminhai vossos passos para a morada paterna. O Pai vos estende os braços e está sempre pronto a festejar o vosso regresso ao seio da família”. Essa questão indica-nos, com indiscutível clareza, a situação de banimento por vontade própria, “o voluntário exílio”, em que vivemos nas plagas terrenais e a necessidade de sermos “reconduzidos”, ou seja, integrados outra vez, a uma condição anteriormente perdida;

2) No item 20 do capítulo XVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, podemos também ler: "Meu Pai, cura-me, mas faze que minha alma enferma se cure antes que o meu corpo; que a minha carne seja castigada, se necessário, para que minha alma se eleve ao Teu Seio, com a brancura que possuía quando a criaste”. Texto que, igualmente, induz-nos a crer que fomos criados em um estado de pureza, o qual perdemos e agora precisamos recobrar, ainda que sofrendo as injunções dolorosas da evolução;

3) No capítulo 21 do livro A Vida Continua, de André Luiz (psicografia de Chico Xavier), encontramos a citação: “A evolução é a nossa lenta caminhada de retorno para Deus”. Peremptória afirmação de que nossa jornada evolutiva é uma via de volta ao Pai, e não de ida por primeira vez, como um estudo isolado da evolução poderia induzir-nos a crer.

Essas poucas citações bastam-nos para validarmos os conceitos que entretecem esse singelo poema, dando-nos a certeza de que não incorremos em uma contradição com os ensinos da Codificação Espírita, mas apenas os aferimos sob um ângulo de vista que melhor nos favorece apreciá-los.

E, enfim, não guardamos dúvida de que essas lições cuidam de aproximar-nos, essencialmente, do Evangelho do Cristo e acelerar nossos passos rumo aos elevados propósitos de nosso progresso. Então, não vemos motivos para não trazê-las à baila. Elas apenas melhoram nosso entendimento e conduzem-nos a uma compreensão mais abrangente dos ensinos do Divino Pastor.

Que a Luz Maior não nos falte nunca a iluminar a patente ignorância. 

Gilson Freire

Agradecimentos

Agradeço o apoio de todos os companheiros do nosso pequeno núcleo de estudos em Nova Lima, mas, de modo especial, à Viviane Pires que, com os pincéis do coração e as cores suaves de sua doce alma, ilustrou a obra, enriquecendo-a sobremodo. À Editora INEDE, que a acolheu em seu acervo de publicações. E a Luiz Cláudio Generoso e Wanderley de Souza, os quais propiciaram a sua primeira impressão. 

Os Autores

Gilson Freire é um médico homeopata e espírita, que, ao ouvir os apelos de seu Anjo interno, pôs-se a seguir as grandes vozes que nos evocam a despertá-lo em nós. Tem se dedicado, por isso, ao estudo da revelação de Pietro Ubaldi e a divulgá-la na capital mineira, onde reside. Publicou algumas obras que nos facilitam o acesso à mensagem redentora do grande Missionário da Úmbria, bem como trabalhos na área de Saúde e Espiritualidade.

Viviane Pires é psicóloga mineira, com raízes em mocidade espírita, estuda Antroposofia, Ubaldi e Pathwork. Inspirada por forte comoção, reconheceu a própria história nesta obra e descobriu desde então que sabe pintar. 

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