Ícaro Redimido: Esclarecimentos Necessários

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Apresento ao leitor uma obra que não pode ser considerada simplesmente uma ficção. É fruto de uma estranha parceria com uma inteligência livre da matéria. Sei que lhe dar tão exótica origem coloca-a no rol das literaturas questionadas quanto à sua veracidade e levanta a suspeita de tratar-se apenas de um produto da imaginação aguçada de alguém capaz de se conceber dominado por forças ocultas, conduzindo o relato dos escritos aqui apresentados. Por isso ela está estritamente endereçada àquele que aceita a possibilidade da existência da vida em um outro plano que não o da carne e admite a viabilidade de trocas de informações através das correntes de pensamentos que trafegam entre os dois mundos.

Este livro, no entanto, não foi desenvolvido pelas vias da psicografia mecânica em que o medianeiro pouco interfere em seu trabalho, mas através de um envolvimento ativo e direto de inspiração consciente. Escrevi-o bastante cônscio de mim mesmo e com clara percepção das ideias que entretecia na mente. Apenas as sentia brotarem com uma profusão inusitadamente rápida e com uma clareza tão cristalina que não me deixavam a mínima dúvida quanto à sua origem. Imagens nítidas formavam-se em minha tela mental sem o mínimo esforço imaginativo e eu apenas cuidava de lhes dar corpo, vestindo-as com minhas próprias palavras, enquanto me sentia enlevado e envolvido por um halo de vibrações de difícil definição. O tempo parecia-me estacionado, ainda que a sucessão das ideias fosse muito superior à minha reduzida capacidade de composição e habilidade de escrita. Embora já ciente do corpo do trabalho, não tinha a menor noção do que iria escrever, até o momento em que penetrava naquele mágico fluxo de ideias. A presença nítida de alguém que não pertence a este plano de vida era evidente e incontestável, e sua influência bastante poderosa para que me curvasse diante dele com sentimento de simpatia, admiração e respeito. Eu o seguia em pensamento, em pleno comando de minhas funções orgânicas, mesmo sentindo, naquele inusitado clima de enlevo, a sensação de estar flutuando ou como se meu corpo estivesse leve e estendido na posição horizontal, atado apenas pelo cérebro.

A vivência dos fatos relatados era de tamanha magnitude que muitas vezes atirava-me em lágrimas por senti-los com surpreendente realidade, como se estivesse presente neles, tal a nitidez com que os quadros formavam-se em minha mente. Essas sensações são as únicas provas, ainda que restritas ao meu próprio testemunho, de que lidei com forças fora da normalidade e além de mim mesmo.

Outras comprovações para certificar-lhes que os relatos desta obra são verídicos não posso apresentar, a não ser minha própria sinceridade. Explicações diferentes, tampouco seria capaz de lhes dar, embora os descrentes do espírito se apressem em recorrer aos mistérios do inconsciente para travestir tais fenômenos de um racionalismo coerente com suas doutrinas materialistas, crenças que já não podem nem mesmo se sustentar diante da imponderabilidade da própria matéria.

Durante um ano, antes de iniciar este trabalho, fui invadido, no momento do sono, por uma profusão de sonhos muito reais e que entreteciam todo o enredo da história que iria escrever mais tarde. No entanto eu não estava ciente do fato e não podia compreender a razão daquilo. Passava os dias acompanhado por aquelas imagens inquietantes e guardava a estranha sensação de trazer a mente invadida por pensamentos que não me pertenciam, pressionando-me as paredes do cérebro para evadir-se. De certa forma, perturbavam-me, dificultando-me o trabalho diurno, por proporcionar-me íntima inquietude e a inexplicável impressão de não estar completamente desperto e integrado ao nosso mundo. Hoje compreendo que se tratava realmente de uma gestação de ideias, um preparo necessário para o perfeito desenvolvimento da obra. Embora incômodas, exerciam uma forma de pressão, como se exigissem para serem escritas. Essa sensação desaparecia por completo no instante em que as transferia para o papel, proporcionando-me agradável alívio. Enquanto o enredo se estendia, minhas noites continuaram sendo enriquecidas pelos mesmos sonhos vívidos e ricos de detalhes das imagens e dos ambientes que depois se desdobravam na dissertação da história narrada. Por isso, além de escrevê-la, eu a vivi intensamente ao longo dos três anos, tempo consumido em sua composição.

Uma entidade que não pertence a este mundo esteve presente junto a mim, inspirando-me no seu relato. Responde pelo nome de Adamastor, e sentia a força de sua presença, impondo-me o seu pensamento e dirigindo ativamente o trabalho. Por vezes, podia acompanhar frase por frase a sua elaboração mental, para me perder logo em seguida numa avalanche de ideias e imagens qual torrente de água cristalina a banhar-me a alma com impetuosidade e ternura ao mesmo tempo. Pedindo-me paciência, falava-me em palavras mudas, impressas na tela mental: “Escuta-me não com teus ouvidos, mas com a tua alma. Guarda na memória as imagens que vês e as emoções que experimentas. Depois, escreve-as com calma, sem tanta pressa e não queiras apreender tudo que te exprime a ideia evasiva. No final, tudo se acomodará. Não temas e nada se perderá. No entanto, não pude evitar que minhas próprias interpretações interferissem no processo e que minha parca condição intelectual maculasse a clareza das ideias percebidas por essa via intuitiva de acesso ao mundo do imponderável. Certamente que não pude vesti-las com a mesma clareza com que as anotava na tela mental e, por isso, guardo a certeza de não ter sido suficientemente assertivo para evitar os erros que assumo como de minha inteira e única responsabilidade.

Muitos nomes e termos inteiramente estranhos ao meu ambiente psíquico eram percebidos com natural insegurança, exigindo-me posterior e cuidadoso estudo, a fim de conferir-lhes a exatidão, impondo à captação mediúnica um perfeito controle racional, evitando-se assim os enganos naturais decorrentes de minha insegurança e da rapidez com que se imprimiam em minha mente. Contudo surpreendia-me, atestando que a maioria deles correspondia exatamente à forma com a qual se me apresentaram. Entretanto, muitos não se acham registrados ou pelos menos não os pude encontrar nas biografias ao meu alcance, de modo que admito a possibilidade de erros, em decorrência da exótica origem destes dados e da exiguidade de minha visão metapsíquica. Ainda que um dos objetivos deste trabalho seja a aproximação dos fatos desta e da outra vida, a precisão de seus informes, no que diz respeito à exatidão da grafia, não foi, em momento algum, o seu escopo principal. Seu enredo e seu personagem serviram apenas como um propósito secundário para a veiculação da verdadeira mensagem da obra, que objetiva engrandecer-nos para a vida real do espírito, incentivando nossa melhoria moral, ensinando-nos a valorizar a vida e a vê-la como um meio indispensável para a conquista dos tesouros da eternidade.

Sei que o protagonista destes relatos desperta especial interesse para a história de nossa nação por retratar um de seus mais ilustres personagens. Certamente que muitos questionamentos serão suscitados perante as revelações aqui apresentadas, pelo fato de parecer destituí-lo das glórias e feitos que lhe atribuímos. Creio que a intenção da espiritualidade superior não é diminuir o valor de quem quer que seja, mas apenas nos revelar fatos que possam nos instruir e nos tornar mais felizes. Acredito ainda que se a vida de todos os grandes homens da história universal, excetuando-se o Cristo e seus santos mensageiros, fosse-nos apresentada sob a ótica do espírito, falhas de caráter e fraquezas incontestáveis ser-lhes-iam imputadas, não sendo o nosso herói em particular uma exceção à regra. Nossos ídolos, quase sempre, encarnam nossa pretensão de hegemonia, representam nossos mais genuínos anseios de perfeição e realizam nossos sonhos de audácia, por isso, costumeiramente, vê-los desqualificados pela realidade ofende-nos os próprios brios.

Ao perceber o alcance da obra e sua possível relevância para a nossa história, senti-me incapaz de desenvolvê-la com a envergadura de que se fazia necessária. Não me foi dada, porém, a opção de negar o trabalho e tive de executá-lo a despeito de minha insuficiência, pois não guardo dotes de literato, não conheço o idioma o bastante para evitar grandes erros e muito menos trago cabedal de intelectualismo satisfatório para ser aquele que a encabeçasse no mundo físico. Senti-me fortemente conduzido e tenho certeza de que a espiritualidade desprendeu enormes esforços na superação dos óbices que minha ignorância lhe contrapunha, por isso espero contar com a compreensão daqueles que, conhecendo minhas parcas possibilidades e inquestionáveis limitações, assistem-me projetado em tal patamar de realização, ainda mais por tratar-se de assunto distanciado do meu âmbito de atuação profissional.

As notas foram todas elas colocadas posteriormente, a fim de auxiliar o leitor e pode-se considerá-las como de minha própria autoria. Algumas, contudo, demonstravam-me nitidamente tratar-se de sugestões do autor espiritual e as registrei como tais. Um glossário foi inserido no final do livro, com a intenção ainda de se facilitar a revisão de neologismos próprios do texto, sendo que os termos que aí se encontram acham-se grafados em itálico, para que sejam facilmente identificados.

As lições que se depreendem de seu enredo, como as considerações sobre a ovoidização, a energética do psiquismo e as ponderações sobre a doença depressiva do homem podem ser julgadas inéditas e questionadas quanto ao seu real valor doutrinário, se para alguns parecerem não guardar perfeita identidade com as revelações que até então nos foram apresentadas como integrantes dos preceitos espíritas. Contudo, reservando-me o direito de coautor da obra, deixo claro que se trata de opiniões pessoais, tanto minhas quanto da entidade que as ditou, pois se lhes dei guarida é porque se coadunaram com o meu próprio modo de pensar e conceber os ensinamentos espíritas que me bafejam a razão. Embora eu situe suas origens fora de mim mesmo, este não deve ser o motivo para encará-las como verdades absolutas e inquestionáveis, pois todos, encarnados ou não, somos seres ainda em crescimento e estamos sujeitos aos mesmos equívocos naturais da jornada do conhecimento. Para isso ressalto as palavras de Allan Kardec, as quais suscito para a nossa reflexão: “um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os espíritos, nada sendo mais do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau de adiantamento que haviam alcançado e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles. Portanto a razão plena deve nortear-nos não somente na leitura desta obra, como servir também de peremptório juízo crítico para o julgamento de todo e qualquer corpo de ideias que se nos apresente como oriundo do insólito mundo dos espíritos.

Dessa forma, acreditar na veracidade dos fatos aqui narrados será uma questão de foro íntimo, ligado à maneira de cada um conceber a vida e seu telefinalismo. Aqueles que creem que tudo termina nas portas do túmulo, certamente passarão adiante, sem a mera curiosidade de questionar o sentido da existência e o significado de obras de tão aparente exótica origem. Outros, contudo, que acreditam na imortalidade da alma, poderão aceitar a história como um drama real, vivido no plano do espírito. No entanto, não importa que a encarem como mera ficção, se dela for possível extrair subsídios aproveitáveis em nossa melhoria moral. Nosso esforço terá encontrado a sua recompensa. Eis o que interessa e seguramente este é o escopo maior de todo o nosso empenho, meu e de meus companheiros, deste e do outro mundo.

 

Gilson Freire

Belo Horizonte, outubro de 2000

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