Um Novo Conceito de Enfermidade

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Gilson Freire

 Este texto é um dos capítulos do livro Saúde e Espiritualidade volume II, publicado em 2014 pela Editora INEDE. Agradeço à equipe do INEDE e aos participantes do NASCE (Núcleo Avançado de Saúde, Ciência e Espiritualidade, da Faculdade de Medicina da UFMG) pela avaliação e revisão deste artigo.

NOTA - para os leitores de homeopatia, este texto representa uma INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DINÂMICA MIASMÁTICA, por isso assim ele se acha referido no Menu "Artigos de Homeopatia".

INTRODUÇÃO

Uma nova medicina para um novo homem do século que se inicia, requer um novo conceito de enfermidade. E um novo conceito de enfermidade, por sua vez, suscita um inovador critério de homem, sobre o qual se apoiar e desenvolver renovados conhecimentos e eficazes terapias. Os tratamentos propostos pela ciência médica atual, embasados no reducionismo materialista e na visão mecanicista da vida, parecem atingir o seu limite, ao decifrarem-se os últimos elos das interações bioquímicas e os códigos gênicos que os produzem. Enzimas e defeitos em suas interações terminam como sendo o derradeiro responsável pelo adoecimento humano, fazendo-se o único alvo terapêutico de todo o moderno arsenal farmacológico. No entanto, não podemos mais justificar nossa saúde e nossa doença a átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio de que se compõe a vida. Faz-se indispensável um novo entendimento do que é de fato o homem, do que realmente produz sua vida e sua consciência, e quais sãos suas reais dimensões, para enfim determinar como e porque ele adoece e então, somente então, desenvolver novos e seguros procedimentos terapêuticos para conferir-lhe uma saúde verdadeira.

Ao pensador que se aprofunda na compreensão do significado da vida e questiona o que é o ser humano e para onde se destina sua caminhada, a consideração de que ele é nada mais que uma secreção neuronal não mais serve como resposta definitiva sobre a estonteante fenomenologia que percebemos em nós mesmos. O sentimento de uma unicidade diretora presente em nosso funcionamento e a certeza de que nosso ser pensante está além de nosso próprio corpo são inquestionáveis realidades, demonstrando-nos que uma medicina materialista e de superfície não pode alcançar os reais fundamentos da vida e da doença e alçar-nos a uma verdadeira saúde. Reconhecemos que a medicina é exitosa em impor momentâneo controle aos desarranjos biomoleculares e seus efeitos, não obstante, ela não pôde até então atuar sobre os fatos que os induzem e sequer impedir que os desequilíbrios reincidam ou direcionem-se para outros sítios orgânicos. Ora, como curar, sem saber o que é o fenômeno humano em sua natureza essencial e qual o papel que a doença cumpre no concerto da vida? Uma verdadeira medicina deveria estar aberta a pesquisar o que é exatamente a manifestação humana, quem de fato a produz, qual a sua origem e o seu destino, por que ela adoece e qual a função biológica do adoecimento, para então alcançar a real causa de seus distúrbios e impondo-lhes eficaz controle.

Este texto representa uma mera introdução a esses questionamentos e não se propõe e revolvê-los definitivamente. Não se pode ter tamanha pretensão. Trata-se unicamente de um ensaio de introdução ao tema, intencionando servir-se como uma simples base para futuros e mais abrangentes estudos. A proposta aqui apresentada não é uma elaboração do autor, que apenas se digna a repetir conceitos apreendidos da homeopatia, trazidos pela genialidade de seu fundador, Samuel Hahnemann. E traz nada mais que a esperança de algo contribuir com o desenvolvimento de novas ideias que venham a embasar uma Nova Medicina, para os Novos Tempos.

Torna-se conveniente, antes de adentrar o tema em estudo, aferir o significado de algumas expressões empregadas na produção deste texto. Para designar os estados mórbidos do ser humano, a medicina utiliza palavras latinas, acrescidas ou não de radicais gregos, como fonte de sua terminologia, assim como a ciência de modo geral. Os dois principais são páthos e nósos, de origem grega. O primeiro, de sentido mais amplo, define originariamente tudo que suscita no homem sentimentos de compaixão e piedade, em situações reais ou mesmo produzidas pelas artes, como o teatro e a música, por exemplo. Já o segundo, mais restrito, pode ser traduzido por doença propriamente dita. Assim, encontramos em medicina os termos nosologia (classificação das doenças) e patologia (estudo geral e particularizado das doenças), daí derivando-se, por exemplo, cardiopatia e cardiopata (doenças do coração e o doente do coração, respectivamente). Além desses termos, considerados “científicos”, os textos médicos empregam comumente vocábulos de uso popular para designar e descrever seu imenso rol de distúrbios orgânicos, sem incomodar-se com suas exatas definições. Assim, servem-se de termos como afecção, doença, enfermidade, moléstia, distúrbio, perturbação, mazela, mal-estar, adoecimento, indisposição, achaque, incômodo, ataque, padecimento e mal, dentre outros, como de aproximados significados ou mesmo sinônimos. Originalmente, no entanto, esses vocábulos traziam significados próprios, implícitos em suas etimologias. Consideremos apenas os mais comumente empregados: afecção, doença, enfermidade e moléstia. Afecção provém do latim affectione, a ação de afetar ou influenciar, designando o estado resultante da influência sofrida. Doença procede do latim dolentia (dolens+entis), que remete para sentir ou causar dor, afligir-se ou amargurar-se. Enfermidade corresponde à fusão de outros dois termos, também do latim, in (negação) e firmus, resultando naquilo que não é firme, robusto ou saudável, significando, assim, debilidade, fraqueza e perda de saúde. E moléstia advém de idêntica palavra latina, molestia, que exprime enfado, incômodo, estorvo, inquietação e desassossego14.

Portanto, levando-se em consideração a etimologia, dever-se-ia reservar afecção para as alterações resultantes de uma determinada ação mórbida; doença, para o sofrimento experimentado por quem sofre a alteração induzida; enfermidade, para o enfraquecimento e o estado de debilidade do organismo doente; e, enfim, moléstia, para a sensação de desconforto e mal-estar que acompanham os estados mórbidos20.

Segundo Rezende (Linguagem Médica)14, embora tais termos respondam por contextos semânticos próprios, seus empregos em medicina e na linguagem popular não resultam em apreciações de significativa distinção. Conforme explica-nos o autor, eles se confundem no uso geral, ocasionando verdadeiras metonímias, de modo que as tentativas dos linguistas de manter seus sentidos originais e diferenciar seus empregos mostram-se inúteis e sem qualquer resultado prático final.

Alguns autores9 asseguram a conveniência de aferir à doença o distúrbio obje­tivo do organismo que pode ser constatado por análises laboratoriais e ter comprovada a sua existência, reservando o termo enfermidade para a sensação de doença, ou seja, a percepção subjetiva e própria de cada indivíduo diante de sua perturbação, de qualquer natureza que seja, tendo ou não sua existência comprovada por exames complementares. Trata-se de uma proposta interessante e que se mostra útil ao estudo da morbidez humana. Entretanto, não é ainda uma regra de consenso geral entre os produtores de textos médicos. Assim, embora doença e enfermidade, moléstia e afecção distingam-se essencialmente por suas etimologias próprias, neste capítulo, serão utilizados como sinônimos, a fim de se facilitar o entendimento do tema e suas implicações, por interessar-nos unicamente o desenvolvimento dos conceitos e não suas exatidões semânticas.

UM NOVO CONCEITO DE HOMEM

Muitas disciplinas humanas na atualidade, como a ciência espírita e as medicinas complementares, mostram-se abertas à ideia de que o homem seja uma unidade multidimensional, sendo seu arcabouço físico nada mais que o último elo de uma cadeia de corpos interpostos. Destarte, não foram ainda suficientemente convincentes a ponto de suscitar a ciência ortodoxa a buscar comprovações para essa inferência, e sequer bastante persuasivas para impor à medicina novos caminhos terapêuticos. Enquanto a medicina permanece fixada nos pressupostos materialistas, compreendendo o fenômeno humano nada mais que um jogo de interações bioquímicas, os profissionais de saúde aficionados às crenças espiritualistas continuam exercendo uma prática médica convencional, sem encontrar uma aplicação terapêutica compatível com seus avançados preceitos. Não assistimos, portanto, até então, à tão esperada revolução que a Era do Espírito nos promete.

Muitas são as evidências de que o homem é mais que uma simples coleção de órgãos, de modo que não se pode insistir em negar essa realidade em obediência a preconceitos ou pelo mero fato de que a ciência oficial ainda não deu sua última palavra, por faltar-lhe elementos de comprovação laboratorial. Muitos são os exemplos de que conceitos formalmente negados pelo pensamento científico em uma época tiveram de ser refeitos mais tarde com o aprimoramento de seus instrumentais de pesquisas.

A composição do átomo e a dicotomia energia/matéria é um exemplo claro. Tidos como elementos distintos na concepção dualista do século XIX, a física quântica terminou por comprovar que não somente se trata de expressões de um mesmo substrato, como a matéria, na verdade, inexiste por si só. As pesquisas no mundo intra-atômico não deixaram dúvida de que as partículas são expressões de campos imateriais, sendo suas massas meras e imprecisas coagulações probabilísticas. A matéria, transformada em onda, desvaneceu-se ante os atônitos olhos do século XX e deixou de ser a base fundamental da realidade. A energia é agora o sustento do Cosmo, a entretecer todos os seus eventos, ainda que os mais concretos deles.

A composição do Universo é outro caso atual: as ciências ocultas apregoavam que forças sutis estufavam o espaço e sustentavam o arcabouço cósmico, o que foi cabalmente destituído pela ciência do século XIX até final do século XX. Hoje, no entanto, é a própria cosmologia que assegura que 73% da composição total do Cosmo constitui-se de um substrato inefável, imperceptível e que permanentemente o infla, chamado “energia escura”. Restou-lhe 27% de matéria, da qual a maior parte também é invisível, pois desta, apenas 4% representa a massa detectável e palpável, distribuída em 3,6% de gases interestelares e 0,4% de substância densa21,22. A matéria visível propriamente dita, que forma sóis, mundos e corpos biológicos é, portanto, o menor e o mais exíguo componente do Universo. É a ciência então que dá o aval à imponderabilidade e a evoca como um genuíno elemento da realidade física. Assim, conceitos amofinados pelos séculos, tidos como produto de mentes incultas, como empíreo, quinta-essência e Potentia dos antigos gregos, foram ressuscitados, assim como o fluído cósmico concebido por Descartes e admitido pela ciência espírita atual.

Ora, se tal é a composição do Cosmo, justo considerar que todos os seus produtos copiem sua exata constituição, ou seja, o átomo, como muito bem atesta a física quântica, nada mais é que um emaranhado de energias, sendo sua massa uma parte ínfima de sua composição total, ou, como asseguram alguns, produto de uma mera ilusão da consciência que a observa. Então, é plenamente possível admitir que os seres vivos, como genuínos filhos do Universo, sejam emaranhamentos quânticos, igualmente formados por 99,6% de substâncias impalpáveis, representando suas contrapartes palpáveis nada mais que 0,4% do total. O fenômeno humano, por conseguinte, em sua quase totalidade, pode muito bem ser um composto sutil e invisível. Abrem-se as portas para conjecturar-se sobre sua preponderante imponderabilidade e multidimensionalidade18.

A inverdade de uma época quase sempre se constitui na verdade de uma era subsequente, como tem mostrado fartamente o desenvolvimento da história humana. Assim, pressupor a existência de domínios não físicos na composição do ser humano não pode mais ser considerado próprio do pensamento religioso, restrito a esferas místicas. Deve ser encarado como uma hipótese científica altamente provável que precisa ser levada a sério.

É preciso considerar, não obstante, que não se tem ainda subsídios seguros para se demonstrar a existência da multidimensionalidade humana, bem como a de todos os seres vivos. Há fortes evidências no terreno das perquirições e a história traz rumores, oriundos de diversas culturas, algumas milenares como a chinesa e a indiana, de que o homem é a fusão de diversos domínios sutis. Algumas identificaram a existência de sete corpos, que iriam desde o mais denso, a carne, aos mais sutis, como o astral e o mental. Entre essas culturas, chamadas em seu conjunto de ciências ocultas e cuja fonte de conhecimentos advém de percepções intuitivas e informes que se perdem nas noites dos tempos, destaca-se a Teosofia e seu imenso acervo de dados, apresentando propostas convincentes da realidade desses sete corpos humanos. Este capítulo não se propõe a revisar e abordar a composição humana em “sete corpos”, na sua magnitude histórica e cultural. Restringir o fenômeno humano a três dimensões apresenta-se como uma proposição mais explícita, satisfazendo a exigências interpretativas deste estudo. Assim, como hipótese de trabalho, conceberemos o homem como um composto ternário, feito de uma consciência imaterial, um campo de energias sutis e uma contraparte material propriamente dita. Corpo consciencial, corpo dinâmico e corpo físico é uma forma objetiva de se denominar essas unidades, caracterizando-lhes os limites de ação, facilitando-se assim compreendê-los e abordá-los em uma perspectiva racional, de fácil aceitação para a dialética moderna.

O corpo consciencial seria a unidade diretora e organizadora de entidade humana. A sede do eu, onde são elaborados os pensamentos e a vontade, albergando ainda os ilimitados panoramas do inconsciente. Destituindo-se dos preconceitos que ainda dominam a racionalidade científica atual, denominar essa unidade de espírito favorece o seu entendimento, uma vez que nos leva a identificá-la com os atributos essenciais que lhe foram conferidos pelo pensamento filosófico e religioso de todos os tempos. Compreende-se espírito, portanto, nada mais que o princípio imaterial, incorpóreo, fonte da inteligência e da consciência, do qual se originam os processos psíquicos, a criatividade, a vontade, os sentimentos e os fundamentos éticos do ser humano. Embora possam ter distinções semânticas, considera-se aqui alma como sinônimo de espírito.

 Claude Bernard (França, 1813-1878), o famoso pai da fisiologia médica moderna, já havia anunciado a necessidade de imputar a refinada organização encontrada nos seres vivos a uma entidade superior, imaterial e inteligente, dotada da capacidade de interação com a matéria, não só ordenando-a segundo suas necessidades, mas mantendo sua integridade e conferindo ao trabalho celular o correto sentido de unidade encontrado nos organismos vivos. Em um de seus trabalhos, ele afirma: “O que condiz essencialmente com o domínio da vida não pertence à química, nem à física, nem ao que possamos imaginar. É a ideia de geratriz dessa atuação vital. Em todo  gérmen vivo há uma ideia dirigente a manifestarse e a desenvolverse em sua organização”. Esse conceito de “ideia dirigente”, que encontramos também nos trabalhos de Pietro Ubaldi19, o qual o denomina “psiquismo diretor”, corresponde exatamente ao primeiro domínio da unidade ternária humana, o espirito.

Já o corpo dinâmico seria o campo de atuação de uma especial força, o princípio anímico que produz a vida, sendo o motor das atividades metabólicas que sustentam o funcionamento orgânico, incluindo as percepções, a sensibilidade e as elaborações mentais dos seres humanos. Confunde-se, em algumas escolas filosóficas, com o conceito de alma, enquanto em outras, como as correntes vitalistas, é chamado de força ou energia vital, proposto como um verdadeiro molde de emanações etéreas que entreteceriam e sustentariam as formas biológicas. Foi ele exaustivamente enunciado por diversas escolas, ditas ocultistas ou místicas, ao longo da história humana, que o identificaram por percepções intuitivas, recebendo diferentes denominações. Os egípcios chamaram-no de Ka; os persas, de Kaleb; os hindus, de Linga-sharira; Pitágoras, de carro sutil da alma; Paulo de Tarso, de corpo espiritual; Paracelso, de corpo sidério; Leibniz, de organismo sutil; Mesmer, de fluido magnético; a ciência russa, de corpo bioplástico, entre outras muitas designações.

A ciência espírita, que também apregoa a existência de três domínios na entidade humana, denomina de perispírito a essa veste etérea, o qual afirma sobreviver à morte física. É então, por meio do perispírito, também chamado psicossoma, que o espírito, o ser eterno, constrói, configura e mantém em funcionamento seu arcabouço de carnes. Hernani Guimaraes Andrade, um pesquisador e estudioso dos fenômenos espíritas, cognominou-o modelo de organização biológica (MOB). E Rupert Sheldrake (Inglaterra, 1942), famoso biólogo, pesquisador em bioquímica e fisiologia vegetal e autor de diversos livros, postula igualmente a existência de um campo estrutural da forma nos seres vivos, o qual nomeou campo morfogenético. Em sua obra A Presença do Passado: Ressonância Mórfica, ele afirma: “A morfogênese, ou seja, a modelagem dos sistemas biológicos (células, tecidos, órgãos, organismos) é ditada por um tipo especial de campo mórfico, a traduzirse por campos morfogenéticos, os quais não só permanecem em constante interação com os sistemas vivos, como também se modificam, influindo em sua estabilidade”.

A partir da elucidação da estrutura do DNA, por James Watson e Francis Crick em abril de 1953, a ciência passou a acreditar que o código genético seria o responsável pela organização, funcionamento e estruturação das formas biológicas, como único elemento a dominar a intrigante inteligência presente nos seres vivos. Anatomia, fisiologia, bioquímica e a própria estrutura do pensamento, da criatividade e da personalidade seriam não só regidos como também produzidos por encadeamentos aleatórios de genes, sem que houvesse qualquer outra entidade dirigindo-lhes a patente sabedoria. Entretanto, o projeto Genoma Humano, ao mapear a sequência gênica no ano de 2000, trouxe a constatação de que o reduzido número de genes ativos no DNA não é suficiente para se explicar a alta complexidade presente no organismo humano e na vida de modo geral. Assim, a moderna genética, a contragosto, concluiu que o código genético está longe de ser o manual completo da vida e deve ser encarado como um rascunho de como se construir corpos biológicos. Daí advém, por exemplo, a curiosa verossimilhança entre o genoma do homem e do chimpanzé, da ordem de 99,4% de igualdade. Fato que motivou Francis Collins, o chefe do Projeto Genoma Humano, a declarar no ano de 2000, com a mais pura sinceridade que a ciência lhe outorga: “A complexidade do ser humano surgiu de alguma outra fonte, pela qual devemos agora começar a procurar”.

De fato, admitir que a vida seja produto de uma casual junção de átomos de carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e fósforo, de que se compõe o DNA, pressupõe acreditar na existência de um evento verdadeiramente sobrenatural: o “milagre do acaso”. A observação do funcionamento da fenomenologia universal leva-nos a adotar, como axioma, que o acaso somente pode gerar desordens e apenas a inteligência pode produzir efeitos inteligentes. Desse modo, na proposta da multidimensionalidade dos seres vivos, o genoma passa a ser nada mais que um dispensário de moldes proteicos, um chip biológico, no qual o espírito grava informações necessárias ao seu trabalho de construção de biomassas. Poderia assim ser comparado a uma indústria de materiais de construção, que os confecciona segundo modelos preestabelecidos, a fim de que o mestre de obras, o campo dinâmico, oriente esses materiais em suas corretas posições, para o desempenho de previstas funções, determinadas por um plano diretor, estabelecido com sabedoria pelo engenheiro e arquiteto, o espírito.

Samuel Hahnemann (Meissen, Alemanha, 1755-1843), o médico fundador da homeopatia no final do século XVIII, também conclui pela existência de um campo energético interposto na unidade humana. Ao realizar experimentos com substâncias altamente diluídas, o fundador da medicina dos semelhantes concluiu que não estaria lidando com substratos físicos, porém com emanações imateriais, que ele chamou de essências espirituais, por faltar-lhe melhor designação. Como os seres humanos respondiam a esses medicamentos sutilizados, Hahnemann concluiu que um substrato de igual natureza integraria o homem, chegando assim ao conceito de força ou energia vital. Desse modo, o sábio de Meissen não só chegou à conclusão da presença de um campo sutil na organização humana, como também à compreensão da natureza ternária do homem, concebendo-o como um composto feito de espírito, energia vital e corpo físico. (Mais detalhes sobre a história e o desenvolvimento dos conceitos básicos da homeopatia, ver o artigo HOMEOPATIA: MEDICINA PARA O HOMEM INTEGRAL.)

Segundo o pensamento homeopático, esses três elementos da composição humana estariam, além de integrados e interpostos em indissolúvel unidade, submetidos também a uma ascendência hierárquica. Ou seja, o domínio absoluto dessa unidade centraliza-se no espírito, seguido pelo corpo dinâmico, terminando no corpo físico. Assim, a energia vital foi chamada de “vice-regente da alma”, admitindo-se-lhe uma ação nada mais que automática sobre a estrutura carnal, estando subordinada diretamente ao determinismo do espírito. Esse conceito, embora bastante intuitivo, requer ser salientado a fim de que se compreenda adequadamente a etiologia dos desequilíbrios de nossas forças sutis e suas subsequentes induções dos distúrbios físicos. A organização carnal, portanto, seria o último elemento dessa unidade, representando nada mais que um campo de efeitos, jamais de causas. A ordem causal da fenomenologia humana, tanto normal quanto patológica, partiria, desse modo, do campo consciencial, tendo o manto dinâmico como elemento intermediário para agir no corpo físico (ver o Quadro Ordem Causal da Enfermidade a seguir).

DOENÇA – UM DISTÚRBIO DE TERRENO

Uma vez que inferiu a existência de um campo dinâmico em ação no composto humano, fácil foi para Hahnemann perceber que toda e qualquer enfermidade natural, além de sustentar-se nesse domínio, manifesta sua perturbação por meio de uma sintomatologia própria, caracterizada por alterações sutis e subjetivas das sensações e emoções humanas. Essa conclusão não era apenas produto de suas acuradas observações, mas revelavam-se igualmente em seus experimentos. O fundador da homeopatia experimentava seus medicamentos diluídos e agitados em pessoas saudáveis, prática denominada patogenesia, e notou que essas substâncias assim sutilizadas despertavam um quadro sintomatológico em tudo semelhante ao que os doentes apresentavam, mesmo antes de adoecerem seus órgãos – ou seja, um distúrbio de ordem subjetiva e geral antecederia sempre a localização da enfermidade em um sítio orgânico.

O corpo físico comprovou-se então ser a última etapa do processo mórbido. O homem adoeceria como um todo, fazendo migrar seu distúrbio da consciência profunda para a sua superfície, a unidade orgânica. Toda enfermidade seria então, em sua origem, uma desordem espiritual, a expressar-se inicialmente como uma anomalia dinâmica, manifestando-se, antes de localizar-se em um determinado sítio ou órgão físico, por meio de perturbações globais, como indisposições, mal-estar, mudanças de caráter, alterações de sensibilidade e sintomas gerais inespecíficos.

O adoecimento humano obedeceria, desse modo, segundo Hahnemann, a um impulsor fundamental, de caráter energético ou dinâmico, alinhado inicialmente no campo vital do ser humano, como uma emanação mórbida essencial. Por faltar-lhe palavras adequadas para denominar os novos conceitos que sua observação suscitava, o mestre de Meissen chamou de miasma a esse pulso de natureza imaterial, definido por ele como uma perturbação dinâmica. Palavra em desuso no jargão médico, os dicionários correntes designam miasma como espécie de “emanação a que se atribuía o contágio das doenças infecciosas e epidêmicas”, além de referir-se à “exalação pútrida que emana de animais ou vegetais em decomposição” (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa). A homeopatia incorporou-o, no entanto, com o significado de uma pulsão ou força enfermiça, não pertinente ao domínio orgânico ou material do ser humano, porém energético e indutor de subsequente distúrbio físico.

O moderno conceito de campo da física talvez possa socorrer-nos no entendimento do que seria o miasma homeopático. Define-se campo como a “região sob influência de alguma força ou agente físico”– por exemplo, campo eletromagnético, campo gravitacional etc. De igual modo, poderíamos admitir a existência de uma força ou tendência orgânica deletéria capaz de gerar em seu raio de manifestação um campo mórbido. Esse seria o miasma hahnemanniano, passível de impregnar uma determinada região do organismo, induzindo ao mau funcionamento as células que o integram. Hahnemann introduz-nos assim no conceito de uma entidade dinâmica ainda não identificada ou definida pela ciência atual, mas que pode ser constatada pelos seus efeitos, como veremos a seguir.

Esse distúrbio dinâmico foi também denominado em seu conjunto de perturbação de terreno, juntamente com o quadro sintomatológico de que se faz acompanhar, manifesto inclusive em forma de sensações e alterações mentais e não apenas físicas. A doença então se inicia como um terreno enfermiço, uma predisposição mórbida, não localizada, para então fixar-se em uma determinada região orgânica. Primeiro adoece o homem, somente depois, perturba-se sua veste carnal. Assim, passou-se a compreender em homeopatia que toda doença começa como um distúrbio de terreno, de natureza dinâmica, o qual se procura reconhecer e identificar, antes mesmo que se converta em enfermidade física, diagnosticável laboratorialmente. A doença física é então vista como um “cogumelo” que somente surge e se desenvolve caso encontre condições ambientais favoráveis à sua sobrevivência. Portanto, deve interessar à arte da cura o conhecimento dessas condições mórbidas, muito mais que a doença em si. E compreende-se, nessa proposta, que não basta dispor-se a eliminar a enfermidade com métodos coercivos, se as condições que favorecem o seu desenvolvimento mantém-se íntegras e ativas, pois o “cogumelo” voltará a nascer se o terreno continuar favorável ao seu sustento. Por isso, o tratamento homeopático deixou de enfocar a enfermidade, o que era feito nos seus primórdios, para ocupar-se prioritariamente do enfermo e suas condições mórbidas. “Há doentes e não doenças” é um aforismo cediço comumente suscitado pelos homeopatas, que o imputam ao próprio Hahnemann, e os historiadores atribuem a Hipócrates.

Na compreensão da suscetibilidade ao adoecimento reside então toda a genuína arte da cura. Por isso, o estudo da suscetibilidade ou condição mórbida que induz ao subsequente adoecimento passou a ocupar a atenção das pesquisas em homeopatia. Há em toda doença um doente que a alimenta e a favorece, o qual precisa ser abordado como um todo, para não só se alcançar a real fonte de sua perturbação como também estabelecer meios mais eficazes de se combatê-la. Portanto, esse seria o caminho para se introduzir a medicina na busca pelas verdadeiras causas das enfermidades humanas, levando-a a ocupar-se não só com o fenômeno mórbido em si, mas com sua real origem.

No estudo da suscetibilidade, a homeopatia fez outra interessante constatação: o adoecimento de terreno admite características próprias em cada doente. O que pode levar um ser humano a adoecer é distinto do que induz um outro ao desequilíbrio. A isso se convencionou chamar idiossincrasia, fator determinante da individualização do tratamento homeopático. Doenças iguais são tratadas de modo distinto de acordo com as predisposições constitutivas de seus “terrenos mórbidos”. E doenças diferentes podem receber o mesmo tratamento, se seus “terrenos” se mostram semelhantes. Isso se tornou possível pelo fato de que os medicamentos experimentados pelo método homeopático mostravam-se capazes de tratar o mesmo distúrbio particularizado de terreno que produziam nas pessoas saudáveis – a aplicação da chamada Lei dos Semelhantes (para mais detalhes sobre o desenvolvimento desses preceitos, ver o artigo HOMEOPATIA: MEDICINA PARA O HOMEM INTEGRAL.)

Ante esse novo conceito de enfermidade – embasado na multidimensionalidade da vida e na inferência de que a doença humana advém de planos mais profundos – abre-se um campo de conjecturas para se admitir que todo fenômeno mórbido não seja um mero fracasso ou um acidente biológico, mas um evento com função predeterminada, que obedece a leis universais, estabelecidas por propósitos superiores ainda ignorados. Haveria, assim, sobretudo para os seres conscientes, uma motivação até então desconhecida para a enfermidade e o sofrimento que ela carreia. Sua presença na vida humana poderia ser compreendida como a correção da desarmonia interna que a produz. Portanto, a enfermidade seria um indutor de novos equilíbrios para os desvios humanos, agindo, assim como a seleção natural, como um dos mais poderosos impulsores da evolução.

São preceitos teóricos que não puderam ainda ser comprovados pela ciência, mas que encontram respaldo em muitas correntes de cunho filosófico e religioso, tidas como válidas pelo pensamento humano. A despeito da nuvem de incertezas que os envolvem, eles guardam um imenso potencial especulativo, capaz de suscitar novos caminhos de entendimento para o fenômeno mórbido e de dilatar os horizontes médicos em futuro próximo.

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Quadro sinóptico da nova visão da causalidade mórbida no ser humano. 

 DINÂMICA MIASMÁTICA – A FISIOPATOLOGIA DE TERRENO, SEGUNDO A HOMEOPATIA

Uma vez constatado que, antes de um órgão doente, existe um terreno mórbido que leva esse órgão a adoecer, as perquirições homeopáticas voltaram-se para pesquisar como esse terreno se perturba, ou seja, como se origina o miasma e como ele manifesta seu desequilíbrio, antes de conferir ao universo celular o seu desarranjo. Desse modo, a homeopatia iniciou o estudo da fisiopatologia do terreno, o que se convencionou denominar dinâmica miasmática.

Esse trabalho foi iniciado por Hahnemann nos oito últimos anos de sua vida, depois de haver arquivado criteriosas observações clínicas ao largo de mais de 30 anos de prática médica. E publicou suas interessantes conclusões em sua última obra, Doenças Crônicas12. Nesse profícuo estudo, realizado alguns anos antes de Rudolf Virchow criar a patologia médica, o fundador da homeopatia compreendeu que o distúrbio de terreno, nas chamadas doenças naturais ou endógenas, manifesta-se de três maneiras distintas: umas restringem-se a perturbar as funções celulares; outras produzem perda de massa orgânica, ocasionando ulcerações e eliminações pútridas; e existem aquelas que induzem o organismo a construções impróprias e excedentes, levando as células a trabalhar e crescer além de seus naturais limites. As primeiras são as doenças funcionais, responsáveis pelas disfunções orgânicas diversas; as segundas representam as enfermidades de caráter destrutivo; e as últimas, as moléstias de aspecto neoformativo ou proliferativo. Em resumo, para Hahnemann existiriam então três formas básicas de se produzir o adoecimento humano: a doença funcional, a degenerativa e a hiperformativa. O mestre de Meissen, mais uma vez, por falta de terminologia adequada, denominou o primeiro distúrbio, a disfunção, de Psora (termo grego que significa mancha); o segundo, de Sífilis, por ser esta, em sua época, a mais comum das enfermidades de caráter destrutivo; e ao adoecimento hiperformativo, de Sicose (palavra também de origem grega que significa verruga, o mais comum dos crescimentos orgânicos inadequados).

Psora, Sífilis e Sicose passaram então a designar, em homeopatia, as três doenças crônicas de caráter “miasmático” do homem, ou seja, as três formas básicas de se perturbar o terreno e se induzir todo e qualquer subsequente adoecimento físico. Ressaltemos que Hahnemann referia-se a forças mórbidas que levam o organismo a adoecer, e não a entidades clínicas propriamente ditas. Como o célebre médico alemão não teve tempo de esclarecer-nos devidamente o seu pensamento, o tema mostrou-se inicialmente confuso, levando muitos de seus seguidores a interpretar a Sífilis miasmática como a própria enfermidade venérea e contagiosa; a Sicose, como sendo o condiloma acuminado (uma verruga venérea induzida pelo papilomavírus humano, o HPV), e a Psora foi relacionada à escabiose, ou sarna, a mais frequente das enfermidades que, digamos assim, “mancham” a pele do homem.

Mediante a colaboração de vários estudiosos da homeopatia, sendo os principais Jayme Tyler Kent, Henry Allen, N. Ghatak, Herbet A. Roberts e, sobretudo, o notável homeopata argentino, Alfonso Masi Elizalde (1932-2003), é que a temática encontrou o seu desenvolvimento lógico e sua perfeita aderência à realidade fenomênica observada na prática médica. Com o auxílio desses autores é que se chegou às conclusões delineadas a seguir, apresentadas de modo sucinto como uma introdução ao tema. Deve-se, no entanto, ter em mente que essas conclusões ainda são pouco conhecidas dentro da própria homeopatia e não se acham, até então, perfeitamente difundidas em todas as escolas que integram essa disciplina na atualidade. Por isso o tema admite diferentes interpretações.

Esses autores deixaram claro que os chamados miasmas crônicos devem ser compreendidos como impulsos, forças-tendências ou pulsões mórbidas que induzem e direcionam a fisiopatologia humana. Falemos, portanto, de campo psórico, campo sifilítico e campo sicótico, correspondentes ao adoecimento funcional, degenerativo e hiperformativo, respectivamente, a fim de evadirmo-nos das comuns associações com suas correspondentes entidades clínicas. Logo, onde há um distúrbio funcional (ou quanto muito, segundo o conceito de Hahnemann, doenças cutâneas benignas), o miasma psórico está em ação. Se a ação mórbida age segundo um caráter hipotrófico ou destruidor de tecidos, o estigma sifilítico acha-se atuando. E se está patente o predomínio de exagerado crescimento orgânico, a tara sicótica está agindo no campo físico. No entanto, esses três modos de adoecimento não são fenômenos isolados, porém representam a progressão de um mesmo movimento que se inicia como um simples distúrbio funcional para, em seguida, tomar o direcionamento do polo sifilítico ou do polo sicótico, levando ao progressivo desenvolvimento de suas correspondentes entidades clínicas. Assim, compreende-se que o adoecimento inicial é a Psora, a perturbação em base a qual o organismo vai escolher o caminho da Sífilis ou o da Sicose. Exatamente por isso, a Psora foi chamada a mãe de todas as doenças – sem sua ação primária não haveria o estabelecimento dos outros dois subsequentes miasmas.

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Fig. 1- A inter-relação dinâmica entre Psora, Sífilis e Sicose, os três estados miasmáticos fundamentais, como duas polaridades de um movimento único de sentidos opostos.

A célula então, segundo a fisiopatologia proposta pela homeopatia, inicialmente perturba-se e adultera o seu funcionamento, sem, no entanto, estabelecer uma lesão física. Apenas suas funções passam a não se cumprir corretamente. Uma vez iniciada a trajetória mórbida sob a ação da Psora, a célula deve eleger entre o caminho da degeneração ou o da hipertrofia, sob a orientação do tipo de dinamismo mórbido que o organismo adota. Assim, toda Sífilis e toda Sicose originam-se de uma base psórica, definida, desse modo, como a predisposição mórbida, a condição inerente à natureza humana que a leva ao adoecimento.

Aplicando-se esse mesmo conceito ao campo dinâmico, concebe-se facilmente que a energia vital inicia também seu desequilíbrio passando de um ritmo eutônico ou eurrítmico para a distonia ou a disritmia. A partir dessa primordial manifestação, o campo energético encaminha-se para a hipotonia ou a hipertonia de seus pulsos. Logo, a energia vital, assim como o corpo físico, adoece de Psora e depois de Sífilis e de Sicose.

De igual maneira, pode-se imaginar que a mente humana deflagre seu adoecimento começando por perturbações funcionais próprias da esfera psíquica, caracterizadas como ansiedades, inquietudes, inseguranças ou medo. A seguir, evoluiria para os estados mentais de desalento e decaimento vital, ou, por outro lado, para quadros psíquicos de euforia e excessiva vitalidade, desde manifestações inaparentes, consideradas normais, até as doenças psiquiátricas propriamente ditas, como manias, esquizofrenias etc. E tem-se, assim, que no plano mental humano pode-se identificar a mesma manifestação ternária de Psora, Sífilis e Sicose.

Como o raciocínio homeopático considera a expressão humana uma manifestação unitária e hierarquizada em três domínios, o mental, o energético e o físico, torna-se claramente compreensível que os pulsos miasmáticos psórico, sifilítico ou sicótico partam das instâncias mais profundas do homem, o plano mental, a partir do qual impregnam o campo dinâmico que, por sua vez, terminam induzindo a esfera física ao seu correspondente adoecimento, segundo sua inerente tendência. Dessa forma, estabelece-se em homeopatia a perfeita correlação mental, energética e física do adoecimento humano, compreendendo-se que a enfermidade orgânica nada mais é que a configuração exterior daquilo que impera no interior do homem. Ou seja, um gradiente mórbido, gerado em seus planos profundos e imateriais, termina por ser impresso, por meio do veículo dinâmico (a força vital), na esfera orgânica.

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Fig. 2 - Os desequilíbrios fundamentais da mente (CM, campo do ego) determinam as perturbações do campo energético (CE), que terminam, por sua vez, impondo-se ao campo físico (CF), representado pela célula. Esta se perturba, destrói-se ou hipertrofia-se. No centro, vemos em ação a Psora; à esquerda, a Sífilis; e à direita, a Sicose, nos planos mental, dinâmico e físico, de cima para baixo, respectivamente.

Uma vez descoberta a perturbação miasmática do ser humano, acuradas observações suscitaram aos homeopatas importantes e curiosas particularidades de seu mecanismo de ação. Uma das mais importantes, denominada satisfação da suscetibilidade, considera que os miasmas, uma vez que se direcionam para o corpo físico, tendem a se acalmar nos planos profundos. Fenômeno também conhecido como drenagem mórbida, revela que a doença física traz uma intenção curativa do pulso miasmático profundo, uma vez que o leva a “desaguar-se” e esgotar sua morbidez nas “camadas” superficiais da unidade humana. Se o distúrbio orgânico é simplesmente detido por métodos de supressão de sintomas (tratamentos convencionais), haverá sempre um recrudescimento da pulsão miasmática, que não somente tenderá a “desafogar-se” em novas recidivas do mal físico, mas igualmente, e o que é pior, poderá aprofundar-se, manifestando-se em órgãos mais internos, por meio de enfermidades de igual caráter, porém mais graves. A força mórbida que induz ao adoecimento humano poderia então ser comparada a um iceberg, que sempre fará emergir novas protuberâncias de sua massa total e profunda, desde que uma delas seja amputada. Hahnemann comparou, entretanto, o comportamento dos miasmas à figura mitológica da Hidra – o monstro de nove cabeças que vivia no pântano de Lerna e que, além de ter um sopro mortal, desenvolvia duas cabeças para cada uma que se lhe cortavam.

Portanto, a conclusão a que se chegou a partir dessas observações é que a simples supressão de um tumor, por exemplo, é capaz de redirecionar a evasão da pulsão sicótica que o alimenta para o plano mental. E conclui-se que toda construção anômala do organismo é uma espécie de contrapeso orgânico que mantém o tônus miasmático na superfície corporal, fazendo esgotar aí o seu potencial destruidor. Sua presença no corpo físico deveria então ser tolerada ao máximo, caso não ameace a vida do indivíduo ou sua integridade orgânica. E o mesmo se pode deduzir das doenças funcionais e das degenerativas – uma vez suprimidas, terão seus mananciais enfermiços dirigidos para sítios orgânicos mais profundos, chegando por essa via à mente do homem, seu mais nobre plano de manifestação.

Compreendeu-se também que a movimentação miasmática na mente é instantânea, ou seja, é capaz de se mover rapidamente de um estímulo sicótico para um recolhimento sifilítico. O campo energético adapta-se prontamente aos novos padrões dinâmicos que lhe são impostos pela mente. O plano físico, no entanto, tarda a moldar-se ao novo resultado desses movimentos miasmáticos. Por isso, torna-se possível encontrar um doente com construções mórbidas nitidamente sicóticas, enquanto seu estado íntimo de abatimento configura-lhe situar-se na sífilis homeopática. Portanto, o corpo físico tenderá a se adaptar ao gradiente predominante na vida do indivíduo e não ao resultado último em que se encontre.

Todavia, a conclusão de maior alcance que a teoria miasmática suscita é a que diz respeito à sua origem. O conceito de hierarquia, ao estabelecer que o espírito é o governador da unidade humana, deixa claro que Psora, Sífilis e Sicose não só se manifestam inicialmente no plano consciencial, mas têm aí a sua fonte. Assim, o psiquismo humano e sua veste personalística passaram a ser o foco dos estudos dos miasmas, suscitando-se novas abordagens terapêuticas que interfiram em suas produções. Campo de trabalho ainda em desenvolvimento em homeopatia, aguarda o avanço de estudos e pesquisas e, sobretudo, a colaboração de outras disciplinas humanas, como a psicologia, para se instituir métodos não medicamentosos, capazes de salutar e eficaz controle do comportamento humano na gênese dos miasmas.

Na Argentina, Masi Elizalde, a partir dos anos 80, propôs a denominação de dinâmica miasmática ao tema em questão, ao denotar a plasticidade, a interação e a pronta reversibilidade dos estados miasmáticos, desde o plano mental, de onde são deflagrados, até o campo energético e, posteriormente, ao físico. A Psora na mente foi compreendida como a instabilidade emocional, a vivência inadequada das angústias existenciais humanas, em suas expressões de carências, temores e culpas, vividas como ansiedades, inquietudes e inseguranças. Diante de um ser humano padecendo pelas angústias próprias de nossa espécie, sentindo-se portador de carências as mais diversas e sofrendo por elas de modo inadequado, identificamos a manifestação da Psora em seu psiquismo. Se, no entanto, esse mesmo indivíduo encontra-se dominado pelo desalento, com intenção de abandonar suas atividades e refugiar-se em estados depressivos, ele estará experimentando a manifestação do miasma sifilítico. Se, ao contrário, o entusiasmo lhe excede e ele parece estabelecer-se em um patamar de superioridade das forças psicofísicas, então o veremos sob os embalos da Sicose. Identificamos assim um estado psíquico distônico fundamental, um hipotônico e outro hipertônico, a alimentar, respectivamente, a Psora, a Sífilis e a Sicose nos domínios dinâmicos e físicos do ser humano, configurando suas correspondentes enfermidades.

Masi Elizalde, ao perceber que as instâncias do ego e seus moldes psíquicos são os verdadeiros deflagradores de todo o processo mórbido, propôs então a utilização de nova nomenclatura para as pulsões miasmáticas: a Psora poderia chamar-se egodistonia (de ego, o eu, o princípio psíquico e diretor do indivíduo, e distonia, do grego dis, mal funcionamento, e tonus, do latim, intensidade, tensão); a Sífilis homeopática passaria para egolise (ego+lýsis, do grego, rotura ou quebra), representando as condições de degeneração do psiquismo humano; e egotrofia (ego+trophía, do grego, nutrição ou desenvolvimento), para os quadros de manifesto exagero do eu. Nomenclatura não só mais apropriada, mas que também se evade dos equívocos interpretativos que os nomes originais sempre suscitaram.

Assim, a Psora relaciona-se aos estados de ansiedade, instabilidade, angústia, medo e sensações carenciais, as mais diversas possíveis, como a carência de afeto, de amparo, de força, de justiça, de paz, de segurança, de felicidade, por exemplo. Representa a distonia do ego, ou a egodistonia. A egolise designa a degeneração do ego, a qual se manifesta através da perda da autoestima e as mórbidas tendências à autodestruição, que podem culminar com a fuga esquizofrênica ou o suicídio. Já a egotrofia assinala os perfis de comportamento humano caracterizados pela supervalorização de si mesmo em relação aos demais, ou seja, o egoísmo franco, a egolatria, a soberba e o autoritarismo – atitudes próprias do ego que se posiciona acima dos demais. Tendência normalmente acompanhada de excessivo entusiasmo e desmedida vontade realizadora.

Evoluindo o tema, Masi Elizalde compreendeu que tanto a egolise quanto a egotrofia seriam nada mais que reações defensivas do estado psórico fundamental. Então, Sífilis e Sicose homeopáticas passaram a caracterizar as duas possíveis reações de defesa da Psora. Sendo os sofrimentos humanos intoleráveis no seu estado puro, o psiquismo cuida de construir suas defesas, quase sempre impróprias. Inicialmente, ele tenta evadir-se deles, refugiando-se nos quadros depressivos e degenerativos da mente, movimento que leva ao recolhimento e ao desalento, e pode terminar com o suicídio. Ou, como segunda possibilidade, o ser decide, ainda que inconscientemente, enfrentar suas angústias, carências e deficiências, hipertrofiando sua maneira de ser a fim de compensá-las. Sífilis e Sicose, portanto, são atitudes e hábitos com que vestimos nossa personalidade na intenção de aplacar-nos as múltiplas carências e angústias, próprias da existência. Chega-se assim à compreensão de que o homem adoece desde o mais profundo ao superficial, sendo o físico um espelho daquilo que se passa na sua intimidade. Se identificamos uma doença degenerativa, poderemos então procurar pelo predomínio dos estados egolíticos do enfermo, em algum momento de sua vida. E se estamos diante de um nítido adoecimento hiperfuncionante e hiperformativo, reconheceremos que a egotrofia esteve atuante na maior parte da existência do indivíduo.

Como já foi dito, no plano mental, os estados miasmáticos são altamente dinâmicos e facilmente cambiáveis, enquanto o plano físico exige tempo para adaptar-se ao gradiente enérgico em pauta no momento. Fato que nos permitirá identificar em um doente em franca egolise mental a presença de patologias orgânicas sicóticas. E entenderemos, sem muita dificuldade, que um organismo acomodado na posição egotrófica, ao mudar seu campo mental e dinâmico para um estado egolítico, deverá apresentar um rápido decréscimo de sua massa, o que faz através das chamadas exonerações ou drenagens mórbidas, veiculadas pelas doenças agudas. E chega-se à extraordinária compreensão de que há uma motivação para os episódios agudos que sofremos em vida – não são mais que exonerações do “miasma” dominante e uma tentativa de reequilíbrio do organismo. Condição frequentemente vista nas crianças que começam a desenvolver doenças febris no instante em que lhes são impostos os grandes desafios do crescimento humano, como o início da jornada escolar, por exemplo.

Justo esclarecer que, curiosamente, ao mesmo tempo em que Hahnemann estabelecia o aspecto ternário do adoecimento humano, suas experimentações com medicamentos revelavam que as substâncias medicinais sutilizadas despertavam nos experimentadores um corpo sintomatológico que, tanto no plano mental quanto no físico, configuravam a exata manifestação trimiasmática observada na clínica. Assim, cada medicamento homeopático, com rica patogenesia, apresenta com nitidez um cortejo de sintomas psóricos, sifilíticos e sicóticos. E a homeopatia passou então a empregar um medicamento pela capacidade que ele detém de suscitar um desequilíbrio dinâmico de terreno idêntico ao do doente. Com isso, impôs-se ao homeopata o trabalho não só de conhecer a história natural da enfermidade que no momento porta seu paciente, mas igualmente a identificação de seus estados miasmáticos e a procura por um medicamento homeopático que corresponda com exatidão ao seu dinamismo mórbido. O homeopata, dessa forma, para medicar corretamente e seguir a evolução do seu doente, deve entender como ele constrói seu adoecimento ao longo da vida, identificando os sofrimentos básicos que lhe servem como motivações para deflagrar a egodistrofia; como se revelam seus movimentos defensivos de egolise e as razões últimas que o levam a construir sua malfadada aventura egotrófica de autoafirmação.

Esse novo modo de trabalho, que exige demorado contato com o paciente e íntima interação com sua alma, gerou em homeopatia uma nova escola, chamada miasmática ou de terceiro nível, como a mais fina e evoluída caracterização do unicismo homeopático. Ele induz-nos à satisfatória compreensão de que, quando o organismo constrói tumores, ele não age por mero acaso, mas está sob o embalo da tara sicótica, a excessiva egotrofia humana; e, igualmente, ante o avanço das doenças hipotróficas e degenerativas, faz-se preciso reconhecer a ação degenerativa da egolise humana e suas motivações, muitas vezes ocultas aos olhos do médico. A ação do medicamento homeopático seria de estimular o equilíbrio dessa dinâmica mórbida, impondo silêncio à Psora, o chamado estado de latência psórica, a condição de saúde possível em nossa espécie e o critério de alta do tratamento homeopático.

Como se pode antever, o tema admite múltiplas possibilidades, sendo capaz de suscitar a medicina a mudar substancialmente o seu alvo terapêutico, que passaria da doença para o doente, aumentando assim sua capacidade de conferir-nos uma saúde verdadeira e estável. E, ao levar-nos a conhecer as angústias humanas em suas mais profundas e originais manifestações, mostra-se ainda uma maneira eficaz de introduzir-nos na patologia da alma, o fim último do conhecimento médico.

O estudo da dinâmica miasmática aprofundou-se a partir de então, reconhecendo as múltiplas manifestações interativas e reativas, deflagradas pela Psora, em ação na alma humana. Tanto a egodistonia, quanto a egolise e a egotrofia dividiram-se em diversas possibilidades de reações em cadeia, ampliando-se a análise dos miasmas para interessantes considerações que aqui não cabem ser desenvolvidas.

Entrementes, os questionamentos mais importantes da tese miasmática coligiram na busca pelas causas do sofrimento psórico fundamental, ou seja, a etiologia da Psora, desde que esta se mostra o deflagrador de todo o processo mórbido. Ao tentar responder a essa intrigante questão, os estudiosos da homeopatia não tiveram outro caminho senão atirar-se a perquirições filosóficas, dividindo-se entre múltiplas possibilidades, de acordo com crenças individuais. De um lado debatem evolucionistas e criacionistas, e de outro, materialistas e espiritualistas reencarnacionistas, sugerindo origens metafísicas para a Psora. São disquisições que, se não podem ainda ser respondidas com a precisão exigida pela ciência, revestem-se de vantagens para todos, uma vez que estimula o médico a adentrar um terreno até então inexplorado pela medicina: a reflexão filosófica.

A despeito das divergências sobre a etiologia da Psora, terreno altamente especulativo que exigiria um estudo a parte, o alcance dessas perquirições pode ser avaliado, por exemplo, na constatação da universalidade da dinâmica miasmática proposta pela homeopatia. Facilmente se compreende que a dinâmica dos miasmas é, na verdade, expressão da mesma dualidade de forças que impera não só na intimidade orgânica, mas em todo o Universo. Basta constatar que todos os fenômenos universais estão subordinados a dois impulsos alternantes e complementares que se fundem para produzi-los: a contração e a expansão. Assim é que nosso Cosmo se faz, em todas as suas instâncias, uma dança permanente de construções e destruições, mediante a combinação dessas duas potências, uma positiva e outra negativa. Psora e Sífilis correspondem ao estado negativo ou de contração das forças ego-orgânicas, e a Sicose, ao de expansão. E encontramo-nos com o fato de que nossa personalidade, assim como o Universo, está permanentemente embalada por um pulso duplo de forças em oposição. São as mesmas energias yin e yang, abraçadas na unidade do Tao, da concepção taoista e que movem todos os seres vivos. E representam também o instinto erótico (amor, vida) e tanático (morte), identificados por Freud e em ação permanente na instância psíquica do homem. Enfim, vemo-la igualmente no metabolismo celular, que se compõe de uma fase anabólica, ativa, que induz à síntese orgânica levando os seres vivos a ganhar massa, em alternância com a fase catabólica, a contração, o repouso, que conduz à perda de biomassa. Isso faz de todo organismo vivo uma junção de construções e destruições, crescimentos e degenerações, desenhando-se a vida como uma grande onda, expressa em fases oscilantes e alternadas. Esse é o embalo próprio da existência, o motor da vida, levando-nos a considerar que a dinâmica miasmática, identificada pela homeopatia, nada mais é que a expressão mórbida de um movimento que, em sua intimidade, é próprio da natureza.

Nessa visão mais abrangente do tema, a egolatria humana e sua imensa capacidade de impor dores e sofrimentos aos semelhantes ressurge como importante fator etiológico de todo o cortejo de patologias naturais encontradas em nossa espécie. A Psora e a reatividade egolítica passam a ser compreendidas como o polo oposto dessa egolatria. Essa fase negativa do dinamismo vital, no entanto, não seria simplesmente o produto da natural oscilação de seu movimento ondulatório, mas um pulso inibidor dos excessos do ego. Logo, essa pulsão restritiva poderia ser entendida como o estímulo de uma Lei superior que visaria a coibir os abusos do egocentrismo e seus males e excitar salutares atitudes altruístas no plano dos sentimentos, dos pensamentos e das ações do homem. São novas possibilidades de entendimento que suscitam o desenvolvimento de terapias comportamentais e evocam a ética como o mais importante agente indutor, tanto da doença quanto da verdadeira saúde humana.

Embora a teoria miasmática ainda aguarde o aval da ciência oficial para legitimar-se como factual, a presença de seus fundamentos nas histórias clínicas dos pacientes é uma realidade inquestionável que não pode ser contestada. Os consultórios de medicina homeopática estão repletos de exemplos que demonstram a legitimidade de seus postulados, convencendo-nos de que nos sutis e ilimitados tecidos conscienciais e suas arquetípicas bagagens encontram-se as motivações últimas para todo o adoecimento humano. Por isso, os pressupostos da tese miasmática e seu revolucionário conceito de enfermidade são um convite para que todos os profissionais da saúde atirarem-se a novos horizontes de pesquisas e de compreensão da natureza humana, visando ao desenvolvimento de múltiplas possibilidades terapêuticas, direcionadas ao controle do imenso potencial que detemos não só de adoecer, mas, sobretudo, de corrigir nossos desequilíbrios e manter-nos na correta via da saúde física e mental que todos almejamos.

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