Homeopatia: Medicina para o Homem Integral

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Gilson Freire

Nota: este texto é um dos capítulos do livro Saúde e Espiritualidade Livro II, publicado em 2014 pela Editora INEDE. Agradeço à equipe do INEDE e aos participantes do NASCE (Núcleo Avançado de Saúde, Ciência e Espiritualidade, da Faculdade de Medicina da UFMG) pela sua avaliação e cuidadosa revisão. Em junho de 2012, ele foi adaptado para servir-se ao Curso de Homeopatia a Distância, promovido pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais. Agradeço também à farmacêutica homeopata Thais Cunha pelas valiosas contribuições a este texto, conformando-o às exigências do curso da Secretaria de Saúde.

INTRODUÇÃO

A homeopatia foi criada em uma época em que a medicina ensaiava seus primeiros passos no nascente campo da ciência e ainda se debatia com os últimos estertores das sombras medievais. Por isso, ela incorporou termos comuns à prática médica de sua época, os quais, em pouco tempo se transformaram ou caíram no desuso, em decorrência do rápido avanço da epistemologia científica. Como, porém, diferentemente da escola médica moderna, seus textos originais permanecem atuais e guardam valores inquestionáveis para o seu conhecimento e prática, essas expressões continuaram ativas e são utilizadas até os dias de hoje pelos seguidores de Hahnemann.

Embora ricos de conceitos, são expressões que podem suscitar ao neófito certa estranheza, parecendo-lhes, de alguma forma, arcaicos. Expressões, como “matéria médica”, que na época designava o estudo da ação farmacológica das substâncias medicamentosas, e “miasma”, que na atualidade perdeu seu significado original, são exemplos de vocábulos presentes nos textos originais da medicina homeopática. Por haver-se ainda consorciado ao Vitalismo, a doutrina de origem grega que se opõe ao materialismo, seus autores valiam-se de certas palavras – tais como “espírito”, “alma” e “força vital” – os quais terminaram por ganhar, em nossa moderna civilização ocidental, uma conotação eminentemente religiosa.

Optamos, desse modo, neste texto introdutório da arte homeopática de curar, por substituir, quando possível, essa antiga nomenclatura por outra mais moderna. Esperamos, assim, evitar que o estudioso se perturbe na absorção dos elevados conceitos homeopáticos, muitos deles, de certa forma, inabituais à medicina de nossos dias. Contudo, em determinadas ocasiões, não há como evitar o emprego de palavras como “alma” e “espírito”, comuns na época de Hahnemann, infelizmente eivadas de preconceitos e que aqui trazem os mesmos significados que as religiões lhes emprestam.

Pedimos a compreensão do leitor em aceitá-las sem prejulgamentos, pois, deixamos-lhe claro que a homeopatia não se confunde com a religião, a despeito de compartilhar com o fideísmo humano determinados preceitos, pertinentes ao Vitalismo, e que ainda aguardam o aval da ciência moderna para se tornarem verdades inquestionáveis à razão humana. Que esse simples fato não sirva como um obstáculo ao estudioso de absorver os elevados conceitos da filosofia homeopática, que muito tem a contribuir com nosso conhecimento e a auxiliar decisivamente na humanização de nossa hodierna medicina.

OS PRIMEIROS PASSOS DE HAHNEMANN

A homeopatia foi criada pelo médico Samuel Hahnemann, nascido em 10 de abril de 1755, em Meissen, na Alemanha. De origem presbiteriana, cresceu em meio às diferenciadas visões médicas oriundas do iluminismo, as quais iniciavam o banimento do pensamento vitalista nas escolas de medicina de sua época.

Contam os seus biógrafos que o sábio de Meissen, desencantado com a medicina vigente, ainda fixada na prática dos humores oriunda de Galeno, encantara-se com o Corpus hippocraticum desde os tempos de faculdade e ressuscitou-o através do novo acervo de conceitos médicos que reunira para compor a homeopatia.

Em sua fase pré-homeopática, foi um grande químico e um exímio pesquisador, adquirindo cedo o hábito de experimentar em si mesmo tudo o que lia. Pela observação, ele logo chegou à conclusão de que os assim chamados “miasmas contagiantes” eram disseminados pelos barbeiros-cirurgiões que drenavam abscessos e pelos médicos que examinavam as parturientes, em decorrência da falta de assepsia.

Desencantado com a medicina empírica de sua época, Hahnemann passou a se dedicar a traduções e à solução de problemas de química. Atuou na saúde pública e na higiene industrial, ao estudar a intoxicação dos trabalhadores das minas de carvão. Dizia-se na época que era “o mais ilustre médico entre os químicos e o mais insigne químico entre os médicos”. De 1777 a 1796, ele publicou 37 trabalhos científicos e efetuou 17 traduções. Em 1790, no entanto, é que inicia a homeopatia, ao traduzir a obra de William Cullen, o farmacologista que descreveu pela primeira vez os efeitos curativos da quinina na malária. Na ocasião, pesquisadores haviam descoberto que os índios peruanos usavam a água amarga de quinina para se protegerem contra o “mal dos pântanos”. Prática que eles tinham aprendido a partir da observação de que os macacos que bebiam as águas das lagoas onde caíam as cascas da árvore Chinchona officinalis, da qual se extrai a quinina, estavam isentos do impaludismo. Cullen detalhava ainda que os nativos que manipulavam as cascas da árvore intoxicavam-se com a droga, terminando por apresentar acessos febris como se estivessem com malária. Sem compreender o valor da interessante observação, o farmacologista imputava os efeitos benéficos do medicamento natural ao fato de ser um poderoso tônico para o estômago e por ser amargo. Hahnemann, todavia, não se convenceu dessa superficial explicação e resolveu procurar por outra. Experimentou em si mesmo os efeitos daquela nova substância, sendo acometido, para surpresa sua, de um acesso semelhante à malária. E, assim descreveu as suas interessantes sensações:

Como experimento, eu tomava quatro dracmas de boa cinchona duas vezes ao dia. Os pés e as extremidades dos dedos esfriavam, eu ficava sem forças e sonolento; então o coração começava a palpitar e o pulso se tornava rígido e pequeno; ansiedade insuportável, tremores, prostração em todos os membros; depois, pulsação na cabeça, rubor nas faces, sede e, em resumo, todos os sintomas que em geral são característicos da febre intermitente apareciam um após outro, mas sem o rigor peculiar, o frio e a tremura. (...) Esse paroxismo durava duas ou três horas cada vez, e recorria se eu repetisse a mesma dose, não outra; eu interrompia o procedimento e voltava a ficar bem.”

Hahnemann recordou-se então de Hipócrates que já anunciara o princípio de similitude: “Pelo semelhante a doença surge e pela aplicação do semelhante a doença desaparece”. Juntou a esse fato sua observação de que as doenças de mesma natureza excluíam-se mutuamente por não poder conviver juntas no organismo. Por exemplo, um episódio agudo de diarreia trata uma colite crônica e a vacínia (varíola bovina) curava e prevenia a varíola humana pelos mesmos motivos. Assim, o pesquisador chegou à conclusão de que a quinina tratava a malária pela sua capacidade de produzir no homem sadio sintomas semelhantes a essa enfermidade.

Esses foram os primeiros passos de Hahnemann no estabelecimento de uma nova ciência médica que viria revolucionar a arte da cura.

Indesejado na Alemanha, em decorrência de seus ardorosos ataques aos médicos da “velha escola”, como ele se referia à prática alopática, exilou-se na França em seus oito últimos anos de vida, vindo a falecer no dia 2 de julho de 1843, com 88 anos, em Paris.

A LEI DE SIMILITUDE

Através da experimentação da quinina, Hahnemann estabeleceu o fundamento terapêutico básico que definiria a homeopatia: o semelhante pelo semelhante se cura. E passou a estudar as drogas existentes em sua época, provando-as em si mesmo e nas pessoas que o seguiam, procurando pelos seus efeitos no homem sadio, para aplicá-las depois na cura das enfermidades naturais caracterizadas por sintomas parecidos àqueles produzidos pelas drogas – a chamada similitude de sintomas. Fato que originou a denominação de homeopatia a essa nova arte médica – palavra oriunda do grego hómoios, que significa semelhante, e pátheia, afecção ou doença. A partir desse fato, passou-se a empregar também o termo alopatia (do grego állos, contrário, diferente) para definir o ato terapêutico que utiliza substâncias contrárias à enfermidade no intento de se curá-la.

EXPERIMENTAÇÃO NO HOMEM SÃO

Ao provar as substâncias medicinais em si mesmo e no grupo de amigos que logo passou a segui-lo, o sábio de Meissen alicerçara outro dos princípios fundamentais da homeopatia: a experimentação no homem sadio. Método até hoje utilizado para se estudar os efeitos das diversas drogas disponíveis na natureza para a cura dos males humanos, então denominado patogenesia. E graças a isso a homeopatia pôde penetrar no sutil psiquismo humano, o que não teria conseguido se houvesse instituído o estudo dos medicamentos unicamente em animais. Dessa forma, foi ele o precursor do método experimental em medicina, utilizando-o muito antes de Claude Bernard, o famoso pai da fisiologia e considerado o iniciador de tal procedimento.

DINAMIZAÇÃO

Logo Hahnemann observou que, ao utilizar em um paciente uma substância capaz de produzir os mesmos sintomas que desejava curar, ocasionava inicialmente uma forte agravação, pois, no princípio, os efeitos do medicamento se somavam aos da própria doença. Por exemplo, ante um quadro de diarreia, ao ministrar pequenas doses de substâncias que têm a capacidade de mover abruptamente o intestino, provocava-se uma forte agravação, seguida de uma cura completa. A fim de fugir dessa danosa e indesejável ação inicial, chamada efeito primário, Hahnemann passou a diluir o medicamento.

O inspirado pesquisador, no entanto, utilizou-se de um especial método de diluição, orientado unicamente pela sua intuição, pois não se conhecem os motivos que o levaram a tal procedimento. Ele preparava uma tintura pura da substância medicamentosa, da qual retirava uma única gota, e a diluía em cem gotas de água alcoolizada. Com a intenção de homogeneizar a mistura, agitava-a fortemente, através de cem pancadas surdas e ritmadas, confeccionando o que se convencionou chamar de primeira diluição centesimal hahnemanniana, abreviadamente CH 1. Dessa primeira diluição, ele retirava uma nova gota para dissolvê-la em novo frasco com outras cem gotas de solvente, fazendo a CH 2, e assim sucessivamente. Instituía-se, desse modo, outro dos fundamentos básicos da homeopatia: o uso do medicamento dissolvido em sucessivas diluições e agitações – método então denominado dinamização.

Após a terceira dinamização, atingia-se o desiderato do fundador da homeopatia, pois se aniquilava todo e qualquer efeito tóxico da droga bruta utilizada. E Hahnemann passou a empregar inicialmente, na primeira fase de sua prática, a quinta e a sexta dinamizações, por se mostrarem susceptíveis de exaltar reações curativas no organismo sem levá-lo às então indesejáveis agravações.

EFEITO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

A partir desses fatos, a homeopatia passou a servir-se das substâncias medicinais nas famosas doses mínimas e infinitesimais. Dessa maneira, a droga perdia toda e qualquer ação tóxica e agia por efeito secundário, estimulando o organismo a reagir contra a sua própria enfermidade. Assim, Hahnemann postulou inicialmente que seus medicamentos atuariam segundo os fundamentos da lei de ação e reação, como espécie de catalisadores, excitando a própria capacidade de cura do organismo.

Compreendia-se, então, a homeopatia como uma forma de se estimular as forças curativas inerentes do ser vivo, diferentemente da alopatia que se empenha na utilização de drogas que combatem artificialmente a enfermidade. Ato este sem dúvida efetivo, todavia, uma vez suspenso o ataque medicamentoso, deixa-se o organismo tão susceptível quanto antes de adoecer novamente. Por exemplo, diante de uma insônia, o emprego de drogas soníferas, utilizadas segundo o princípio dos contrários, leva, por ação própria, ao efeito desejado. Uma vez, porém, que são suspensas, promovem, por ação secundária, o recrudescimento do mal inicial. Gera-se, assim, a necessidade do uso permanente da droga de ação contrária, expondo-se o organismo a seus indesejáveis efeitos colaterais. Já o método homeopático emprega, para tratar uma insônia, uma substância potencialmente capaz de provocá-la, como a Coffea cruda, porém muitíssima diluída. Dessa forma, o seu efeito primário estará atenuado e, por contrarreação, ela estimulará o próprio organismo a reagir contra o seu mal, gerando-se assim um estímulo autocurativo, por efeito secundário.

MEDICINA NATURAL

A partir dessa explicação inicial, a homeopatia se difundiu pelo mundo ocidental, utilizando as diversas substâncias encontradas na natureza, segundo a capacidade que detêm de provocar males nos seres vivos, método que a aproxima da vacinoterapia, ou seja, a utilização de um mal para se curar o próprio mal que ele causa. Enquanto a vacinação é propriamente a isoterapia, por ser o emprego exatamente do mesmo agente da doença que se deseja prevenir, a homeopatia se caracteriza pelo uso de uma substância natural que se assemelha à enfermidade que se quer tratar, daí ser chamada de medicina do semelhante. E para isso a homeopatia passou a empregar substâncias oriundas da natureza, porém de qualquer fonte, seja vegetal, animal ou mineral.

O emprego do princípio de semelhança e dos medicamentos dinamizados define então, com precisão, o que é a homeopatia, diferenciando-a de outras práticas de medicina natural, com a qual se confunde no conceito popular. Dessa forma, ela se distingue substancialmente da fitoterapia, método que emprega ervas medicinais em forma de chás, infusões e outros preparos para a cura das doenças. Como sabemos, essa medicina natural, efetiva e útil no combate a muitas doenças, subordina-se, no entanto, a fundamentos distintos dos preceitos básicos da homeopatia.

É muito comum ouvirmos pessoas dizendo-se em tratamento homeopático pelo simples fato de estar usando determinados produtos naturais que, na verdade, não estão sendo aplicados segundo a lei de similitude e sequer dinamizados, prática que, portanto, não diz respeito à particular arte médica desenvolvida por Hahnemann. A homeopatia é o restrito uso de uma substância que pode provocar o mal que se deseja curar e para isso ela aplica, por vezes, verdadeiros venenos da natureza – substâncias que, se ingeridas em forma bruta, poderiam trazer sérios danos ao organismo ou mesmo aniquilá-lo. Por exemplo, na prescrição homeopática encontramos com frequência o Lachesis, o veneno da cascavel, Belladona e Nux vomica, plantas extremamente nocivas, e até metais impróprios para o consumo humano por serem altamente tóxicos, como o arsênico (Arsenicum album)e o mercúrio (Mercurius solubilis). Essas substâncias, contudo, perdem toda a possibilidade de efeitos maléficos em razão do avançado processo de diluição infinitesimal a que são submetidos, destituindo-os de qualquer resíduo tóxico.

ENERGIA VITAL

Hahnemann, no entanto, não se deteve nos preparos iniciais de seus medicamentos e seguiu diluindo e agitando-os até a trigésima diluição (CH 30), com as quais realizou a maioria de seus experimentos. Hoje sabemos que, ao se chegar à décima segunda diluição (CH 12) atinge-se o número de Avogadro, o limiar de dispersão molecular, a partir do qual não se encontram mais resíduos da substância inicial na solução. Portanto, acima dessa dinamização, já não há substância material alguma nesses preparos, e o medicamento homeopático passa a ser, na verdade, apenas uma essência, não trazendo mais qualquer substrato físico em sua composição. Fato inusitado para a medicina materialista, deixando atônito o raciocínio científico atual e um dos motivos para se refutar a sua ação.

Acredita-se, assim, que a dinamização seja um processo capaz de suscitar um elemento formativo de natureza energética existente nos compostos físicos. Evidentemente, o raciocínio materialista, que tende a negar tudo que extrapola a matéria, recusa-se formalmente a admitir essa possibilidade. Evidentes efeitos, contudo, são passíveis de observação nessas substâncias dinamizadas, tornando-se inútil simplesmente negá-las. Elas atuam até mesmo onde não é possível contrapor-se um efeito puramente psicológico, como nos bebês e nos animais, demonstrando-nos que não se pode mais ignorar a evidente atuação da homeopatia.

Hahnemann não conhecia o número de Avogadro e não sabia que suas diluições haviam ultrapassado o limiar de dispersão molecular. Não obstante, ele intuiu que seus medicamentos estavam sobremodo sutilizados, caracterizando-os como uma emanação energética, a que ele denominou essência espiritual, por lhe faltar terminologia mais adequada na época. E se os organismos vivos respondiam a essas substâncias verdadeiramente eterizadas, o fundador da homeopatia facilmente deduziu que eles deveriam possuir substratos de igual natureza. Assim, ao que tudo indica, ele chegou ao conceito de força vital, concebendo que os seres vivos possuem um campo de expressão energética a sustentar-lhes as estruturas físicas – uma emanação tão sutil quanto seus medicamentos altamente diluídos, os quais, por similitude de propriedades, tocavam-na. Logo, o sábio de Meissen não só chegou à conclusão da presença de um campo vital na organização dos seres vivos como à compreensão da natureza sutil e dinâmica da enfermidade.

Com isso Hahnemann abraçou-se ao vitalismo, a doutrina que apregoa a existência de um elemento energético, a energia vital, subordinado à psique, na elaboração e manutenção da vida.

A UNIDADE TERNÁRIA DO HOMEM

Mediante esses raciocínios, Hahnemann postulou o famoso conceito da unidade ternária do ser humano, concebendo-o como uma entidade possuidora de um corpo físico, um campo de energias sutis que o anima e uma consciência de natureza imaterial que o comanda. A estrutura física seria um composto material, inerte, sustentado e organizado por pulsos dinâmicos, em seu conjunto denominado força vital. Esta se subordina, por sua vez, ao governo absoluto da consciência. E as enfermidades, antes de serem perturbações puramente orgânicas, seriam alterações desses campos eterizados e profundos do ser humano. Estabelecia-se, assim, na homeopatia, um acervo de conhecimentos médicos que a distanciava dos parâmetros puramente materialistas, que então passaram a orientar a medicina científica nascente.

A ORIGEM ENDÓGENA DA DOENÇA – O TERRENO MÓRBIDO

A despeito dessas interessantes descobertas e conjecturas, outros fatos ser-nos-iam revelados pelas acuradas observações de Hahnemann – diríamos que o mais extraordinário ainda estava por vir, em que pese o valor de suas iniciais considerações. Fundamentando-se nesses interessantes princípios iniciais, estabelecia-se a homeopatia como uma prática médica eficaz no tratamento das doenças humanas, mostrando-se mais eficiente do que a terapêutica exercida na época. E se mostrava não só efetiva como também suave e destituída de efeitos colaterais. Todavia, a proposta homeopática ainda tratava órgãos enfermos e doenças como fenômenos isolados da unidade vital, subordinando-se aos mesmos princípios conceptuais vigentes na medicina – ou seja, a enfermidade era vista como um distúrbio exógeno, estranho ao campo orgânico do ser e algo que precisava ser combatido com drogas de efeitos exteriores. Nessa fase da homeopatia, chamada de primitiva ou organicista, Hahnemann utilizava então baixas diluições dos medicamentos homeopáticos, normalmente inferiores a CH 12, e empregava a similitude de sintomas no plano orgânico. Portanto, assim como a prática médica habitual, ele tratava as doenças como fenômenos independentes do organismo em que se desenvolviam. Essa forma de trabalho em homeopatia foi aquela que se difundiu, sobretudo a partir da França, e ganhou o mundo, passando a ser conhecida como homeopatia francesa. Imperou e ainda subsiste como sendo a típica maneira de atuar da homeopatia, exercida, sobretudo, pela cultura popular.

Contudo, o grande passo de Hahnemann não diz respeito a essas descobertas iniciais. Os fundamentos mais revolucionários da sua arte de curar somente vieram à tona nos oito últimos anos de sua vida, quando empreendeu a obra que denominou Doenças Crônicas. O criador da homeopatia havia chegado à conclusão, depois de praticá-la por 45 anos, que seus doentes, ainda que tratados pelo novo método, voltavam a enfermar-se ao longo da vida, e muitos de forma ainda mais grave. Concluía assim o sábio de Meissen que sua nova medicina silenciara momentaneamente as doenças de seus pacientes, mas não curara de fato suas mórbidas tendências a enfermar-se. Não obstante, seu grande desiderato era empreender a cura real do homem e por isso voltou às suas pesquisas e perquirições intuitivas, favorecido pelo seu brilhantismo e aguçado senso de observação.

Assim, Hahnemann tratou de penetrar mais profundamente no fenômeno da patologia humana, descobrindo, inicialmente, que seus medicamentos dinamizados possuíam dois tipos especiais de efeitos, dependendo da diluição em que eram empregados: orgânicos e sensoriais. Enquanto nas primeiras dinamizações a ação medicamentosa se restringia à esfera dos órgãos – despertando sintomas que chamamos organotrópicos – acima da CH 12 os sintomas suscitados eram de outra natureza e diziam respeito às sensações e emoções do homem em sua esfera de interação com o meio ambiente – nominados então sintomas sensotrópicos.

Hahnemann observou também que, curiosamente, os sintomas sensotrópicos apareciam nos pacientes antes mesmo que adoecessem seus órgãos e caracterizavam uma maneira peculiar de ser e de adoecer. Fato que o levou a compreender que essa sintomatologia sutil e subjetiva compunha uma forma especial de cada doente enfermar-se e que a doença, na verdade, começava na esfera mental do homem, uma vez que esses sintomas eram predominantemente de caráter psíquico. A esse quadro que antecedia o distúrbio físico e o acompanhava, Hahnemann denominou sintomatologia de terreno. Assim, muito antes de Freud, o criador da homeopatia penetrou no inconsciente humano e vislumbrou aí a verdadeira etiologia de nossas enfermidades, determinando-lhes o caráter eminentemente psíquico, compreendendo as perturbações físicas como suas consequências últimas. E se esse era o real panorama da doença humana, sendo o distúrbio dos órgãos nada mais do que efeitos tardios do fenômeno mórbido, a terapêutica verdadeiramente eficaz deveria ser dirigida ao terreno. Modificava-se assim substancialmente o desiderato da ação homeopática.

Hahnemann, portanto, fez a interessante descoberta da existência de um “solo fértil”, chamado “o doente”, base para o desenvolvimento posterior de todas as suas enfermidades. A homeopatia então passou a apregoar o famoso postulado, atribuído a seu fundador: “Há doentes e não doenças”. Preceito que determina, com clareza, que a enfermidade é um produto do meio interno do próprio homem, estabelecendo-se com evidência a via endógena (inerente ao próprio organismo) como a determinante de todo e qualquer distúrbio patológico natural.

O criador da homeopatia, contudo, reconhecia que, além dessa via endógena de adoecimento, existiam distúrbios orgânicos decorrentes de meras perturbações exteriores. Assim, o grande pensador estabelecia com clareza as duas vias do adoecimento humano: a via exógena, determinando a doença artificial – aquela oriunda do meio exterior ou dos maus hábitos, nocivos às nossas exigências orgânicas, como vícios e erros alimentares; e a via endógena, produzindo a doença natural – aquela que se origina de nosso próprio terreno mórbido. As primeiras são as chamadas enfermidades exógenas e as últimas, as endógenas. Estas, sim, são as nossas verdadeiras e naturais doenças, passíveis de serem tratadas pela homeopatia. As primeiras, ao contrário, requerem terapias locais e próprias e, sobretudo, o estabelecimento de regimes adequados de vida.

Assim conceituado, deixaremos a enfermidade artificial, entendida como mero acidente biológico, e passaremos a considerar como doença apenas a perturbação natural e endógena do terreno humano.

INDIVIDUALIZAÇÃO

Como já referido, as experimentações homeopáticas revelavam outro fato surpreendente: existiam distintas e peculiares maneiras de adoecimento do terreno, reveladas nas experimentações com medicamentos altamente dinamizados. Esse fenômeno, que passou a ser fundamental na terapêutica homeopática, foi então denominado idiossincrasia – ou seja, a peculiar maneira de adoecer, que caracteriza cada ser humano.

A partir daí, Hahnemann passou a tratar o doente como um todo e não suas doenças isoladamente, baseando-se nas peculiaridades de cada um. Ou seja, ele interpôs ao adoecimento o importante fator individual – a consideração preponderante do seu terreno mórbido, fonte e sustento de todas as suas enfermidades físicas, fato então chamado individualização. Assim cada doente passou a ser medicado segundo as características próprias de seu terreno mórbido e não pela doença orgânica que no momento apresentava. As enfermidades já não eram mais tratadas com medicamentos de ação local, mas de acordo com a base profunda que as sustentava. Desse modo, para doenças iguais, Hahnemann começou a prescrever medicamentos distintos, conforme as modalidades do terreno onde nasciam, e da mesma forma, enfermidades diferentes podiam receber, por vezes, iguais remédios, se a constituição mórbida que as mantinha se mostrava semelhante. A lei de similitude então foi imposta não à sintomatologia orgânica, mas ao campo vital, aquele que se revelava ser o verdadeiro manancial do distúrbio local.

MEDICINA UNICISTA – A MEDICINA DO TODO

Com a descoberta da patologia de terreno, base para o desenvolvimento subsequente de toda e qualquer enfermidade física, esta passou a ser vista como uma erva daninha que nasce na intimidade psicofísica, não por obra do acaso, mas por encontrar nesse campo o ambiente propício ao seu crescimento, condição denominada em homeopatia de suscetibilidade.

Estabelecia-se assim uma nova e distinta metodologia de tratamento dentro da própria homeopatia, que então deixava o campo físico propriamente dito, para penetrar, de fato, na imponderabilidade humana. E evoluía o pensamento homeopático para o que se convencionou chamar de unicismo – ou seja, o tratamento da unidade vital e não de suas partes isoladamente. A despeito do imenso valor de suas descobertas iniciais, esse foi o gigantesco passo de Hahnemann, o qual fez o pensamento médico penetrar efetivamente na essência humana e percebê-la como um todo inseparável, cujas partes somente podem adoecer em decorrência da perturbação do conjunto. Aqui, de fato, a homeopatia distanciava-se do pressuposto organicista e mecanicista da medicina, fixando-se como uma nova forma de ver e tratar o ser humano e suas enfermidades.

Fundamentado por esses novos corolários, o procedimento médico homeopático partiu no encalço dos fatores que determinam o adoecimento do terreno, buscando reconhecê-los na história de vida do doente, interessando-se muito mais pelos aspectos emocionais e as sutis linguagens subjetivas de seu mundo psíquico do que a comum sintomatologia objetiva dos órgãos doentes. A doença inseria-se em um contexto fenomenológico a envolver todo o ser doente – a dinâmica mórbida do terreno – onde se passou a procurar o início e o fim de toda e qualquer patologia. O medicamento homeopático começou a ser empregado segundo esse enfoque unitário do homem, que então foi visto como um todo indivisível e não esfacelado em partes como uma simples máquina, promovendo-se, de fato, uma revolução no pensamento médico vigente. A doutrina vitalista encontrava, enfim, um método que a tornava prática como ato terapêutico, admitindo a existência de um campo energético, não só como o sustentáculo em que se apoia a vida, mas também como a fonte mantenedora e indutora da enfermidade, seja física ou mesmo mental.

A energia vital foi compreendida como o elemento de ligação entre a mente (que Hahnemann chamava espírito ou alma) e o seu veículo de manifestação física (a carne). Elo que em homeopatia recebeu a denominação de “vice-regente da alma”. Estabeleceram-se assim os fundamentos da medicina unicista – aquela que considera e trata o ser humano como um todo indivisível, compreendendo a doença como uma perturbação dinâmica desse todo e não como um distúrbio aleatório de um órgão. O mundo orgânico é agora um simples palco de efeitos e não mais de causas. E toda doença foi então compreendida como uma alteração psíquica, energética e física, conjuntamente, configurando-se a unidade espírito-energia-corpo físico, base para uma medicina integral do ser humano.

Considerada uma energia mórbida, a doença encontrava, enfim, um caminho para ser identificada nos veículos sutis dos pensamentos e das sensações humanas, onde se poderiam encontrar as suas mais profundas causas, estabelecendo-se uma nova fisiopatologia, fundamentada nos mecanismos endógenos da unidade humana.

O método pragmático de combate às doenças, arrancando-as ou expondo-as a substâncias inibidoras, foi então entendido como um extermínio de plantas nocivas que crescem em determinado ambiente. Prática que, aos olhos materialistas, parece ser a mais lógica, porém agora se elucidava perfeitamente os seus insucessos a longo prazo, pois, o seu êxito imediato, por não agir no terreno mórbido, não é capaz de impedir que as mesmas ou outras novas enfermidades reapareçam no mesmo doente, assim como surgiram pela primeira vez. A homeopatia, ao contrário, predispunha-se agora a estudar o terreno que propicia e fomenta o aparecimento das enfermidades humanas, aplicando um estímulo para que essas condições fundamentais fossem modificadas. Assim, esse novo método passou a tratar, na verdade, o ambiente da doença e não esta propriamente. O ato médico deixava, então, de ser um mero extermínio de ervas daninhas para ser uma terapêutica de terreno.

Essa nova e revolucionária medicina que nascia com os fundamentos unicistas da homeopatia fez o médico voltar os seus olhos para a essência humana, o determinante da morbidez do terreno – base sobre a qual se assenta a doença, compreendendo-se o corpo físico como um quimérico campo de efeitos, onde qualquer atuação é irrisória ou meramente paliativa. Dessa forma, doenças iguais passaram a receber tratamentos diferentes e doenças diferentes, tratamentos semelhantes, em decorrência de se fixar a constituição como o alicerce da nova terapêutica – o sujeito visto como um todo, e não em partes isoladas.

E ainda, vislumbrando que a doença é projeção de algo mais profundo e invisível do cosmo orgânico, passou-se a considerá-la não um mal destituído de finalidade, porém uma tentativa de se resolver a adulteração do terreno sobre o qual se assenta. Ou seja, compreendia-se que o meio físico apenas absorve o potencial enfermiço da pestilência energética gerada no campo psíquico do ser. A doença orgânica não seria nada mais do que o reflexo da unidade humana enferma – a satisfação da suscetibilidade mórbida, como a homeopatia passou a vê-la. Em última análise, é sempre um mal menor que visa à defesa do equilíbrio da mente e seus estratos mais sutis. O indivíduo, uma vez doente, tenta localizar esse distúrbio em seus planos superficiais, a fim de consumir nos órgãos menos importantes o potencial enfermiço de suas próprias pulsões negativas.

Estava estabelecido um maravilhoso método que conduzia o raciocínio médico a admitir a existência de domínios imponderáveis na unidade humana que a leva a adoecer. Buscando compreender como a energia vital se enferma, formou-se a base para uma nova corrente de especulações puramente filosóficas, de alto alcance espiritual, chegando-se a uma compreensão mais avançada dos mecanismos eminentemente sutis que levam, em uma última análise, ao adoecimento do homem e seus veículos de manifestação, o energético e o físico. A homeopatia tornou-se, assim, uma filosofia de consequências médicas e penetrou no conhecimento de leis que regem os equilíbrios da vida consciencial, em suas expressões mais profundas. Voltando suas perquirições para o reino das causas, o médico deixou de ser um guerreiro da saúde, combatente dos males que o indivíduo produz para si mesmo, abandonando o chamado “arsenal” médico de ataque, para se converter em um administrador da doença, retirando dela o seu máximo proveito e estimulando processos endógenos de cura para o homem integral.

A LEI DE CURA

Ao iniciar o tratamento do doente como um todo e não do órgão enfermo, Hahnemann e seus primeiros seguidores depararam-se com um fato inusitado: os pacientes, sob o estímulo do medicamento dinamizado e aplicado agora segundo a similitude de terreno e não da doença física, voltaram a agravar antes de melhorar. As famosas reações homeopáticas se estabeleceram, suscitando ao médico novos entendimentos do fenômeno mórbido.

A genuína agravação homeopática fazia-se acompanhar, no entanto, de uma estranha forma de reação: o doente manifestava, rapidamente e na ordem inversa, as diversas enfermidades que teve durante a vida. Esse intrigante fato, chamado retorno de sintomas antigos, tornou-se de tamanha importância para a compreensão da ação do medicamento homeopático e trouxe tais considerações sobre a maneira como adoecemos que foi denominado, em seu conjunto, de lei de cura. O enunciado dessa importante lei, descoberta pela homeopatia, diz-nos que temos uma ordem para adoecer e outra para nos curar, revelando-nos que a cura se faz sempre retrocedendo dos últimos sintomas para os primeiros e de dentro para fora do organismo, ou seja, da mente para a sua periferia.

Suponhamos um enfermo do coração, portando distúrbios ainda reversíveis do órgão. Submetido ao tratamento do seu “terreno mórbido”, e não de sua doença isoladamente, reagirá ao estímulo curativo da substância energizada, melhorando surpreendentemente os sintomas cardíacos atuais, porém reapresentará, pouco depois, antigas dores reumáticas, que já julgava curadas. Seu joelho irá inchar-se novamente, suponhamos. Logo em seguida, ele queixar-se-á de dores gástricas como se fosse a antiga úlcera péptica que teve quando adulto jovem. Mais um pouco e o assistiremos adoecendo de leves chiados como se fosse sua bronquite de rapazote, para apresentar, na sequência, irritação na garganta como se retrocedesse à meninice, adoecendo de amigdalite. E, finalmente, manifestará erupções cutâneas idênticas às que tinha quando bebê. Esse fenômeno, uns dos mais espetaculares que o homeopata pode presenciar da ação do medicamento energizado, leva-nos a compreender que esse paciente cardíaco jamais havia sido curado das diversas doenças que teve em sua vida. Elas foram simplesmente “reprimidas” e se direcionaram paulatinamente para órgãos cada vez mais profundos na sua unidade orgânica.

A doença passou a ser entendida como algo que se deposita em um órgão, mas não tem nele a sua origem. Sendo um manancial mórbido de natureza vibratória, ela pode se deslocar de um local para outro, manifestando-se com sintomatologias distintas, próprias do funcionamento alterado do órgão onde incide, porém ela não é exatamente o que se vê. Desse ponto de vista, o órgão torna-se mero depositário da doença, simplesmente o seu alvo. Esta tem então sua origem nos mecanismos da vida consciencial de cada um, ou seja, toda e qualquer enfermidade, como fenômeno endógeno, é gerada pela consciência e absorvida pelo corpo físico. O caráter da doença foi então considerado um distúrbio energético e sutil, algo como a perturbação de um campo dinâmico, passível de locomover-se de um órgão para outro, perturbando-os segundo suas sintomatologias próprias. Conceito que concorda com a noção de “órgão-alvo” da medicina psicossomática moderna. Destarte, para a homeopatia, toda moléstia, seja física ou não, desde que de origem endógena, é uma emanação psíquica a expressar-se como uma pulsão energética e capaz de projetar-se em qualquer sítio do organismo.

Compreendia-se que o medicamento homeopático mostrava-se capaz de excitar uma via curativa, levada a efeito pelo próprio organismo, guardando, portanto, relação direta com a capacidade individual de se curar. E, de modo geral, as reações homeopáticas são tanto mais intensas e duradouras quanto mais grave se apresenta o enfermo. Sendo sua enfermidade, porém, incurável ou estando ele muito próximo da saúde, essas reações não ocorrem ou são tão brandas a ponto de não se tornarem perceptíveis, revelando-nos que a capacidade de reagir ao medicamento dinamizado é diretamente proporcional à intensidade do adoecimento e à capacidade de cura. Esses novos fatos levaram a ciência homeopática a determinar uma metodologia própria para a condução do enfermo e a previsão de suas reações no caminho de cura, denominados em seu conjunto de observações prognósticas. Mediante tais conhecimentos, a genuína agravação homeopática indicar-nos-á sempre que haverá uma melhora subsequente dos sintomas, com a possibilidade de se restabelecer completamente a saúde do doente. Devemos, contudo, considerar que há agravações que não são reações ao medicamento e sim evolução da própria enfermidade, exigindo do homeopata o bom senso e o conhecimento médico para não as confundir, interferindo de forma inadequada no importante movimento da cura ou deixando de tomar condutas pertinentes à evolução da enfermidade.  

 

FUNDAMENTOS   BÁSICOS DA HOMEOPATIA

 

Princípio   de semelhança

Medicamento   dinamizado

Experimentação   no homem são

Unidade   ternária do homem

Tratamento   do enfermo como um todo

Medicamento   único

Individualização   terapêutica

Lei   de cura 

 
 

Quadro 1 – Os princípios fundamentais que caracterizam a homeopatia e seu peculiar procedimento terapêutico de natureza vitalista, os quais visam ao enfoque do doente como um todo e o tratamento prioritário de sua suscetibilidade mórbida, ou seja, de sua tendência a enfermar-se.

A NOVA VISÃO DO SER HUMANO: UMA UNIDADE HIERARQUIZADA

A observação da lei de cura capacitou ainda à homeopatia a compreensão de que somos uma unidade hierarquizada em planos de manifestação, ou seja, uma entidade formada por camadas ou níveis diferenciados que vão da mente à pele, sem solução de continuidade. Configurava-se a morfologia energética de todo ser vivo como um verdadeiro vórtice dinâmico espiralado, em cujo centro está a consciência e na periferia, a epiderme. No processo de enfermar-se, a mente utiliza essas camadas para desafogar suas pulsões mórbidas, e o faz obedecendo aos planos hierárquicos. Quanto mais saúde se tem, menos grave e mais superficial é a enfermidade.

A doença tornou-se, dessa forma, a satisfação de uma suscetibilidade do enfermo que, se não se esgota em um nível, segue aprofundando-se paulatinamente em direção aos planos físicos subsequentemente mais internos. Ao desafogar-se, a todo custo, no campo físico, esgota-se assim o seu potencial mórbido, liberando as delicadas instâncias superiores e internas do homem.

Desse modo, começamos a vida, como regra geral, depositando nossas moléstias no órgão mais superficial, ou seja, a pele. Por isso, no bebê mais saudável predominam as dermatites, as mais diversas, e suas enfermidades febris e viróticas terminam quase sempre em reações cutâneas, através dos processos chamados exantemas. Posteriormente, a criança passará a enfermar-se em níveis progressivamente mais internos se o processo mórbido energético encistado no terreno constitucional não se esgotar nesses movimentos iniciais. Manifestar-se-á nas mucosas das vias aéreas superiores, através de rinites, amigdalites, otites e, mais tarde um pouco, por exemplo, de bronquites. Chegando à maioridade, ainda sem esgotar o seu manancial distônico e tendo acrescido ao seu potencial mórbido novas pulsões enfermiças oriundas de seu metabolismo consciencial, as doenças tenderão a alojar-se preferencialmente na mucosa do trato gastrointestinal, provocando gastrites, úlceras e colites, próprias do adulto jovem. Posteriormente, assistiremos a seu avanço para locais ainda mais profundos, pois, deixando as mucosas, o fenômeno mórbido locomover-se-á para os órgãos parenquimatosos, passando pelo sistema reprodutor, acomodando-se mais tarde no sistema vascular, quando então se instala, por exemplo, uma hipertensão arterial. Um passo mais e veremos a doença impor-se às articulações, expressando-se através de processos reumáticos, para então ocupar a intimidade de órgãos nobres, chamados vitais, como glândulas endócrinas, rins e coração, progredindo, enfim, rumo ao sistema nervoso central. O término dessa estranha jornada do manancial enfermiço será na mente, onde a doença comparece destruindo o que temos de mais nobre em nós: a razão, a emoção, a consciência e nossa vida de relações. E uma vez que aí se aloje, o corpo tenderá a não mais adoecer, demonstrando-nos o curioso paradoxo dos doentes mentais que guardam relativa saúde física, mesmo na vigência de enorme desestruturação do psiquismo.

Dessa forma, vemos que a enfermidade, seguindo uma via de interiorização, retrocede em direção à mente, de onde veio, e por isso dizemos, em homeopatia, que toda enfermidade começa na mente e termina na mente. Iniciando-se na mente, como um defluxo mórbido de energias, caminhará pelos diversos planos orgânicos em busca do esgotamento de seu potencial lesivo, terminando na mente, como desequilíbrios psíquicos graves, se não provocar antes a aniquilação do organismo, ao passar pelos órgãos vitais.

Essa regra geral do adoecimento humano pode ser facilmente identificada na prática, em nossa própria vida e nas daqueles que nos rodeiam, configurando-se uma incontestável realidade. Entretanto, admitimos variações individuais desse mecanismo, pois podemos identificar indivíduos que já nascem com esse processo acentuadamente adulterado, apresentando em tenra idade graves adoecimentos de níveis profundos. Ao mesmo tempo em que outros atravessam a vida sustentando suas doenças em órgãos superficiais, mantendo relativa saúde emocional e física. A homeopatia, contudo, não se aventurou a explicar as razões últimas dessas distintas propensões individuais de manifestações do processo mórbido, resumindo-se a reconhecer que cada um tem um diferenciado potencial enfermiço, proporcional ao grau do distúrbio energético e endógeno alinhado em seu campo sutil.

AS VIAS CENTRÍFUGA E CENTRÍPETA DA DOENÇA

Aprendemos com a homeopatia, desse modo, que a doença possui duas vias de manifestação: uma de exteriorização ou centrífuga e outra de interiorização ou centrípeta. A primeira, chamada de drenagem, é a via da cura; a segunda representa o caminho do enfermar-se, através do qual acomodamos a doença em órgãos paulatinamente mais internos. O medicamento homeopático mostrou-se ser um potente auxiliar da drenagem mórbida, trazendo o adoecimento “para fora”, como popularmente passou a considerar-se. Portanto, seu mecanismo de ação seria colocar em vigência a via centrífuga da enfermidade, também chamada exoneração ou superficialização.

Segundo esse raciocínio, sempre que passamos de uma patologia mais interna para outra mais externa estamos nos curando, e adoecendo ainda mais quando realizamos o movimento contrário. Assim, se uma dermatite desaparece sob a ação de inibidores tópicos da doença, como as pomadas de corticoide, para manifestar-se, logo a seguir, como uma enfermidade em nível mais profundo, não houve de fato cura alguma – a doença apenas aprofundou-se, pois seu manancial mórbido permaneceu retido no campo vital. Consequentemente, se no decurso de moléstias graves e profundas, como os distúrbios emocionais, verificamos a presença de patologias cutâneas, quaisquer que sejam, devemos vê-las como um mecanismo de alívio do mal principal e profundo.

SUPRESSÃO

Mediante esses novos e curiosos pressupostos, compreendemos que é possível atuar no fenômeno mórbido impondo-se simplesmente obstáculos à sua livre realização, ou seja, impedindo que a drenagem energética complete seu curso e cumpra o seu papel. Efeito possível de realizar-se através da ação “repressiva” dos medicamentos habitualmente utilizados pela alopatia. Assim, a técnica alopática de uso do “contrário” foi considerada inibidora do processo de desafogo do distúrbio energético interno. Tal ação foi denominada pelos homeopatas de supressão – fenômeno compreendido como a repressão da manifestação física e local de uma doença, e não a cura dos impulsos profundos que a mantêm.

O resultado de uma supressão eficaz é a eliminação momentânea da sintomatologia física mediante a qual uma doença se expressa, ocasionando seu subsequente aprofundamento rumo a planos orgânicos mais internos. Ou seja, o organismo empreende sempre a tentativa de esgotar seu distúrbio energético preponderante, a qualquer custo, no local menos lesivo possível. Esse movimento de interiorização é chamado na homeopatia de metástase mórbida. O termo metástase, que significa “mudança de lugar”, é usualmente empregado em medicina para se referir a um câncer que provoca manifestações fora de seu sítio de origem. Para a homeopatia, no entanto, todas as doenças são passíveis de provocarem metástases, pois se são inibidas em um órgão, o organismo vital lançá-las-á em outro.

Como consequência da supressão, o indivíduo não só se enfermará em locais cada vez mais profundos e importantes como também introjetará agravações consecutivas em seu mundo emocional, que poderão exacerbar-se paulatinamente até a completa instalação de um distúrbio psiquiátrico. As pulsões energéticas são, assim, passíveis de refluxos, acomodando-se de volta à fonte de onde partiram, a mente, como já vimos.

A medicina materialista, enxergando a doença como um fenômeno aleatório e sem finalidade, incide com vigor sobre ela, extirpando-a e reprimindo-a a qualquer custo. Esforço heroico e, como veremos, necessário em muitos casos, mas com isso apenas se agrava a condição do doente, deslocando-se seu processo enfermiço para planos mais internos de sua unidade física.

E, uma vez que o desequilíbrio energético se aloje na própria mente, o corpo já não adoecerá mais, pois a drenagem estará completamente aprofundada. Daí o fato de os doentes psiquiátricos pouco enfermarem seus órgãos, e quando o fazem podem aliviar momentaneamente a doença mental, como já havia observado o célebre Philippe Pinel, o pai da psiquiatria.

Ante tais corolários, deduz-se que o real alívio da doença reside na possibilidade de se locomover seu potencial mórbido para a superfície orgânica. Por isso aprendemos, com a homeopatia, a amar as doenças de pele como as manifestações mais benignas, através das quais curamos nossos distúrbios internos.

O raciocínio homeopático passou a considerar que a alopatia atua suprimindo sintomas, como alguém que apenas combate ervas daninhas que nascem em certo local. Elas tenderão a voltar sempre, desde que o terreno continue suscetível e convidativo ao desenvolvimento delas. O homeopata é comparado a alguém que busca conhecer as peculiaridades desse terreno e nele atua, expurgando-lhe a morbidez e sanando assim sua predisposição enfermiça. Com isso, as ervas daninhas, não encontrando mais as condições necessárias para subsistir, simplesmente deixam de nascer ali.

E compreende-se, enfim, que a verdadeira cura de nossos males reside unicamente na possibilidade de aplacar-se a genuína fonte geradora de todo e qualquer processo mórbido, ou seja, nosso metabolismo consciencial, atributo de nosso ser endógeno.

Se compararmos o corpo físico a uma casa entenderemos ainda melhor o funcionamento desse processo, tal como visto pela homeopatia. Se não soubéssemos que a casa tem um morador que produz dejetos indesejáveis, acorreríamos a obstaculizar toda impureza que brota dela. Assim, cimentamos e pintamos uma parede infiltrada, por exemplo, incapazes de compreender de onde vem e qual a natureza real dessa infiltração. Com isso, promovemos um refluxo da sujeira, que se alojará em locais cada vez mais nobres da residência, chegando, enfim, a perturbar o próprio morador. Dessa forma, a morbidez que emana da consciência passa a refluir sobre ela mesma, desarranjando suas expressões emocionais e perturbando seu equilíbrio. O homeopata é alguém que aprendeu que a casa tem um habitante e precisa livrar-se das impurezas que ele mesmo produz, a fim de viver em conforto e saúde. Então o profissional da medicina drenadora comparece como alguém que, com uma vassoura, varre para fora toda a pestilência acumulada, acomodando, no máximo sossego possível, o morador e sua residência.

Admitimos, portanto, que, enquanto a homeopatia exonera, a alopatia trata de reprimir a doença. Mas não é somente a medicina alopática que suprime. O processo pode ocorrer de forma espontânea, pois a mente é capaz de realizar autossupressões, ao não admitir o adoecimento físico em qualquer nível que se apresente. Por exemplo, as dermatites são sempre indesejáveis, por deixar à mostra nossas mazelas e preferimos, quase sempre, acomodá-las em nossa intimidade, mesmo que nos inflijam danos maiores.

E, igualmente, não é unicamente a homeopatia que exonera, pois, além de realizar-se de forma espontânea e natural, há processos terapêuticos seguros que estimulam drenagens curativas, como muitos tratamentos fitoterápicos, regimes dietéticos, a acupuntura, a medicina ayurvédica e mesmo as psicoterapias.

E precisamos ainda admitir a existência de procedimentos terapêuticos que apoiam nosso organismo sem obstaculizar o fluxo da doença, permitindo-nos a livre drenagem do processo mórbido. Favorecendo-nos com o maior conforto possível, atuam como paliativo, sem levar-nos a futuras internalizações mórbidas. A homeopatia de baixa dinamização seria um exemplo desse tipo de terapia. E compreenderemos também que a drenagem cirúrgica de uma coleção purulenta é igualmente eficaz e indispensável auxiliar dessa verdadeira decantação de nossos distúrbios energéticos profundos.

No esquema a seguir representamos a unidade humana por uma espiral, onde cada volta é um de seus planos orgânicos. A enfermidade endógena, oriunda da mente, caminha por eles, sob o impulso centrífugo, curativo, expurgador dos males endógenos. Uma medicina depuradora atua reforçando essa via, e uma ação médica supressiva age obstaculizando-a. E, como terceira opção, consideramos a possibilidade de uma terapia de apoio, a qual, como um impulso perpendicular ao raio da espiral, não inibe nem incentiva a pulsão exoneratória do mal, apresentando ação puramente paliativa.

 Hierarquia

Figura 1 – A ação das três vias terapêuticas possíveis na unidade hierárquica do ser: exonerativa, supressiva e paliativa, configurando as três possibilidades de atuação médica presumíveis, caracterizadas pela homeopatia de terreno, a alopatia e as terapias de suporte, respectivamente.

NÃO SUPRIMIR JAMAIS?

Então as doenças, mesmo sendo penosas e graves, nunca podem ser reprimidas? Devemos sofrer a todo custo os seus danos, sem lhes impor obstáculo algum? É preciso compreender muito bem os princípios aqui expostos, a fim de não perdermos o bom senso, entregando-nos a uma inadequada apologia da dor. Comparemos a enfermidade a um esgoto que deve ser drenado de uma residência, promovendo conforto, bem-estar e segurança ao seu morador. Se simplesmente detivermos o seu curso, a condição do morador será perturbada e a estrutura de sua casa ficará ameaçada a longo prazo. No entanto, se estivermos diante de uma enxurrada, admitimos que se deva contê-la momentaneamente, inibindo-a a qualquer custo, pois em sua marcha violenta ela poderá provocar danos irrecuperáveis à moradia, impedindo-se aí a permanência do morador. Por isso, diante de moléstias graves que ameacem a vida faz-se imprescindível adotar medidas drásticas de suporte ao organismo e, em último caso, severamente repressivas da doença. O que não podemos é considerar tais procedimentos como curativos. São capazes de deter momentaneamente o fluxo da enfermidade, que retomará seu caminho de drenagem mais tarde, se não se esgotou ainda seu potencial mórbido. Isso é muito evidente nos enfermos que passam rapidamente de uma doença a outra à medida que são reprimidas, ou naqueles que jamais se curam pela simples extirpação de um tumor maligno, que continua a ser decantado do corpo energético, de forma cada vez mais intensa, até que sua morbidez se consuma completamente nos tecidos físicos.

A necessidade de processar-se uma drenagem comedida e orientada torna-se evidente e necessária para a segurança da casa orgânica. A homeopatia poderá auxiliar o campo vital a realizar isso, promovendo uma evacuação do distúrbio energético da forma mais amena e mais superficial possível. No entanto, temos de admitir que muitas vezes o processo não pode mais ser movido, não havendo recursos de reatividade vital para isso, requerendo-se medidas convencionais e heroicas para o sustento da vida. Assim é que reconhecemos, sem sombra de dúvidas, que um paciente com uma apendicite aguda deva ser imediatamente encaminhado a um centro cirúrgico. Embora ele possa ser curado de seu campo vital pela homeopatia, não podemos deixá-lo entregue à possibilidade de uma grave contaminação de sua cavidade peritoneal, colocando-se em risco sua vida, se o processo mórbido não for devidamente drenado por uma intervenção cirúrgica eficaz. Portanto, todo bom senso é exigido do médico homeopata no acompanhamento do enfermo que poderá necessitar de recursos tradicionais de combate à doença, como antibióticos ou intervenções cirúrgicas, quando a gravidade do seu estado o impede de uma adequada reação ao estímulo de cura. Logo, admitimos que a medicina supressiva tem sua utilidade, tanto é assim que um curioso axioma homeopático, chamando a atenção para o fato, diz-nos que “mais vale um doente suprimido que um doente morto”.

E finalmente é preciso considerar que determinadas condições orgânicas impõem procedimentos médicos insubstituíveis que a homeopatia não poderá dispensar. Diante da falência completa de um órgão é evidente que temos de prover artificialmente o seu trabalho. Por exemplo, um pâncreas que já não tem células para produzir insulina necessita de sua reposição diária. Um rim que já não funciona deve contar com um processo mecânico de diálise. Um coração que tem sua irrigação sanguínea obstruída precisará de uma reconstituição cirúrgica ou uma angioplastia, e assim por diante. A homeopatia restringe-se à capacidade de tratar o doente e sua tendência mórbida de adoecer, mas os órgãos podem se encontrar de tal forma lesados que um tratamento convencional torna-se imprescindível. Isso não pressupõe o fracasso da terapia hahnemanniana, que então precisaria recorrer a um tratamento alopático para corrigir suas falhas, como muitas vezes se considera. Simplesmente estamos diante de um quadro que não pode mais ser revertido. Sua lesão física é tal que não pode ser reconstituída pelo próprio organismo. O medicamento dinamizado, nesse caso, pode estimular o equilíbrio dinâmico do doente, promovendo sua cura energética, porém não mais é capaz de efetuar sua cura orgânica. Por isso, procedimentos conjugados devem ser decididos em cada caso particular, requerendo do médico homeopata o conhecimento da história natural das enfermidades, a fim de proporcionar o melhor para o seu paciente, evitando-lhe danos maiores.

Diante ainda de uma doença eminentemente exógena, justifica-se a utilização de meios de igual natureza para a remoção e a cura dos males que implica. Compreende-se assim que uma afecção de origem mecânica deva sofrer a ação de meios igualmente mecânicos, sendo essa também uma extensão da lei dos semelhantes, apregoada pela homeopatia. Por isso, deformidades e lesões puramente físicas requerem intervenções igualmente físicas, não se podendo considerá-las de efeitos supressivos.

Conclui-se, desse modo, que o bom senso deve nortear o exercício da homeopatia, permitindo-se que certos procedimentos médicos convencionais, determinados pelo desenvolvimento científico moderno, sejam disponibilizados para o suporte do homem que sofre na Terra.

A VARREDURA MICROBIANA SEGUNDO A HOMEOPATIA

Segundo a homeopatia, as doenças infecciosas são também fenômenos oriundos do desequilíbrio vital e não patologias causadas unicamente por bactérias e vírus patogênicos. Os agentes infectantes, chamados apropriadamente de varredores pelos seguidores de Hahnemann, seriam, segundo esse interessante e avançado preceito, atraídos por um campo vital propício, atuando, na verdade, como auxiliares da drenagem mórbida, uma vez que agem convertendo emanações biopsíquicas degradadas, das quais se alimentam, em coleções purulentas, as quais então facilmente podem ser eliminadas da intimidade energética do ser.

Compreendemos assim que são seres convidados a comparecer em nosso organismo não por casualidade, mas para cumprir um importante papel em nossa economia vital. Podemos compará-los aos abutres, que na natureza realizam a função de lixeiros, digerindo restos biológicos degradados e inúteis. Espantá-los, como o faz a medicina materialista, apenas por que estão presentes, implica que poderão retornar assim que o ambiente se encontre novamente desguarnecido, se o convite para que voltem permanece ativo no campo mórbido do enfermo. Como muitas vezes se constata nas infecções insistentemente repetidas, simplesmente aniquilá-los não é solução definitiva para o problema. Enquanto existir no organismo esse ambiente vibracional incitando os patógenos à tarefa de limpeza, continuarão assediando-o até que neste se esgote a necessidade da varredura vibracional.

Com a ajuda da homeopatia, contudo, compreendemos que há dois tipos de agentes biológicos patogênicos: aqueles que provocam enfermidade pela produção de toxinas nocivas e aqueles que causam doenças por invasão tecidual. No primeiro caso temos os agentes tóxico-infectantes, como o bacilo tetânico, o diftérico e o botulínico, por exemplo. No segundo caso classificamos os patógenos infecto-contagiantes, os agentes bacterianos e virais de nossas enfermidades infecciosas habituais, como o estafilococo, o estreptococo, entre os mais comuns, e tantos outros, muitos deles habitantes normais do organismo, como a Escherichia coli, por exemplo. Esses últimos são os verdadeiros varredores, enquanto os primeiros, na verdade, provocam enfermidade exógena, sendo nada mais do que diminutos animais peçonhentos que nos perturbam por suscetibilidade de espécie, configurando, na verdade, um genuíno acidente biológico.

Compreende-se ainda que existem enfermidades infecciosas que são decorrentes de desequilíbrios ambientais, acometendo todo ser humano que a elas se expõe, como as protozoonoses e verminoses comuns à falta de cuidados higiênicos e distúrbios ecológicos. Diante de tais afecções oportunistas, cabe o adequado combate ao agente biológico perturbador da saúde. A homeopatia, nesses casos, poderá estabelecer maior equilíbrio do terreno vital, sendo uma promotora da saúde global do indivíduo, porém necessariamente não erradicará o parasita, que continuará espoliando o organismo, em obediência aos princípios de sua natureza.

E sabemos ainda que há casos em que o organismo acha-se tão debilitado em suas defesas naturais, que não consegue mais reagir eficazmente contra determinado agente microbiano, mesmo diante de um estímulo terapêutico acertado da homeopatia, requerendo uma defesa artificial a fim de não sucumbir. Mais uma vez, admitimos que se o paciente tem ameaçada a sua vida ou a integridade de um órgão importante por grave processo infeccioso, então o bom senso justifica o emprego dos mais eficazes antibióticos da medicina moderna para permitir-lhe a continuidade da vida.

O VERDADEIRO TRATAMENTO HOMEOPÁTICO

Como podemos concluir, a homeopatia, em sua trajetória evolutiva, determinou dois modos distintos de trabalho, de forma que os postulados acima apresentados não se aplicam a qualquer de suas práticas. Ela se iniciou, conforme explicado, como o emprego da lei dos semelhantes no campo puramente orgânico e se dispunha a tratar órgãos doentes, subordinando-se à mesma filosofia que norteia o pensamento médico materialista. Essa prática, ainda muito comum nos nossos dias, utiliza medicamentos homeopáticos em baixas dinamizações, na quinta e na sexta diluições (CH 5 e CH 6), porém, emprega habitualmente mais de um remédio por vez, a fim de cobrir todas as queixas de um paciente em um determinado momento de sua vida. Tal modo de proceder recebeu o nome de homeopatia organicista, complexismo ou pluralismo e atua quase sempre de modo paliativo, pois raramente despertará a lei de cura, não promovendo retorno de sintomas antigos ou a superficialização do nível da enfermidade.

Já o tratamento do paciente como um todo pressupõe um conhecimento mais completo do terreno mórbido, ou seja, de todo o indivíduo, seu processo de vida, peculiaridades de sua personalidade, seus traumas, fraquezas e pendores. Isso faz da homeopatia uma terapêutica que aborda o ser integral, e o tratamento torna-se um procedimento que considera não somente o conjunto das queixas físicas do paciente, mas também sua bagagem tanto consciente quanto inconsciente, seus sentimentos e sua história de vida. Esse modo de atuar foi denominado de homeopatia unicista, por trabalhar o ser humano como uma unidade indivisível. Ao exigir estudos mais cuidadosos, essa forma de aplicar a homeopatia restringiu-se a uma formação acadêmica, enquanto o seu emprego organicista afeiçoou-se a uma prática popular, por ser de fácil aplicação e ao alcance de leigos. Além disso, o método unicista requer um maior envolvimento médico-paciente, exigindo-se do médico a interação em todos os níveis do doente, a fim de descobrir-lhe o chamado “medicamento de fundo” e acompanhar seu delicado caminho de cura.

Para atingir o terreno e estimular os princípios curativos do campo vital, a homeopatia unicista necessita empregar substâncias em dinamizações altas, comumente acima da trigésima, e preconiza, como regra geral, o uso de um medicamento de cada vez. Esse é o chamado remédio de fundo e que satisfaz a totalidade sintomática e não apenas a um órgão ou conjunto isolado de sintomas. Ele será empregado para o tratamento de todo o quadro do paciente, mesmo que este tenha doenças muito diversas, pois atende ao seu terreno mórbido e não aos seus órgãos enfermos, os quais, como vimos, são o resultado último do seu desequilíbrio e não a enfermidade em si mesma. Por isso, um paciente em tratamento “de terreno” tomará sempre o mesmo remédio, embora adoeça de gripe, tenha diarreia ou sofra de uma cefaleia, por exemplo.

Muito raramente o profissional homeopata desviar-se-á da regra fundamental de usar um só medicamento por vez, preconizada nos postulados hahnemannianos básicos de forma bastante enfática. Condena-se, de fato, o uso corriqueiro de associações de muitos remédios homeopáticos, pois, tratando-se de essências energéticas, podem agir, na mistura, com padrões imprevisíveis de atuação. Embora sejam capazes de auxiliar um organismo enfermo, livrando-o dos efeitos colaterais e danosos dos medicamentos alopáticos, podem também demonstrar uma ação supressiva a longo prazo, levando o organismo a aprofundar seu nível de adoecimento.

Entrementes, entendemos que, muitas vezes, não tem o médico homeopata outra opção senão medicar a patologia física isoladamente. Não se pode considerar, porém, tal prática um legítimo tratamento homeopático. Esse será genuinamente aquele capaz de tratar o terreno mórbido e estimular sua própria capacidade de curar-se, abordando-o como um todo e não somente silenciando momentaneamente um órgão doente.

CONCLUSÕES

Concordamos que os postulados suscitados pela homeopatia e sua diferenciada visão do fenômeno saúde-doença, embora de fácil compreensão, não se enquadram na metodologia científica em voga nos dias atuais, suscitando natural estranheza e, às vezes, severa rejeição pelo pensamento médico dito oficial. Assim como a medicina ayurvédica e a chinesa, igualmente embasadas na fisiopatologia do campo vital, a arte da cura hahnemanniana se fundamenta em preceitos que não puderam até então ser devidamente comprovadas pela ciência oficial.

Todavia, o fato de ela ainda se servir de uma linguagem arcaica, fixada em jargões do século XIX, estranha ao vocabulário moderno em uso nos bancos acadêmicos, não deveria ser o principal fator a distanciá-la da amadurecida inteligência humana hodierna. Como a história nos mostra, é arriscado negar a evidência de fenômenos somente por não se poder compreendê-los devidamente segundo o modelo de conhecimentos vigentes. Fatos novos que rompem a quietude epistemológica humana requerem novas metodologias para serem desvendados e perfeitamente elucidados. Basta examinar o que se passou no campo da Física clássica, cujos postulados foram abalados pelas descobertas da mecânica quântica. Foi preciso edificar uma nova Física, completamente distanciada da primeira, para se perscrutar os intricados fenômenos do infinitamente pequeno.

Julgamos que o mesmo se passa com a homeopatia, conjuntamente com todo o grupo das medicinas ditas vitalistas. Elas penetram em um campo ainda inexplorado pelo conhecimento médico vigente, necessitando-se de novos métodos e renovados fundamentos para se explicá-las convenientemente. É exatamente por isso que o famoso físico e escritor Amit Goswami declarou: “Não tenho dúvida, a homeopatia é uma medicina quântica. O princípio quântico da correlação não-local é essencial para o modo como um remédio homeopático é preparado e administrado”7.

A ação das substâncias homeopáticas não pode ser simplesmente negada como se decorresse de mero efeito placebo. Sequer se pode rejeitar a homeopatia com base no pressuposto de que não se pode explicá-la. O grande número de casos curados por ela deve ser respeitado e a sua imensa capacidade de estimular a autocura precisa ser reconhecida como seu mais importante atributo, a ser validado pela medicina dita oficial.

Não guardamos dúvida, a homeopatia é medicina do corpo vital e como tal deve ser encarada em seus fundamentos. Uma vez que ela penetra nesse novo campo de ação, onde se enraízam as matrizes morfogenéticas, determinantes do funcionamento orgânico, ela se evade completamente das leis que regem a fisiologia visceral e a bioquímica molecular. E para novos princípios, precisamos de renovados parâmetros e revolucionários métodos de averiguação, os quais ainda não estão ao alcance da medicina atual, cujas pesquisas ainda se acham estacionadas preponderantemente no palco físico.

Armada apenas de instrumentos incapazes de divisar a realidade subjacente à matéria, a ciência médica atual nega o fenômeno homeopático. E, mesmo entre os adeptos da medicina dos semelhantes, a despeito dos esforços conjuntos, não se conseguiu até então comprová-la como fato científico. Não alcançamos hipóteses plausíveis, reconhecidamente aceitas por todos os estudiosos e pesquisadores da atualidade. Nos últimos tempos assistimos a tentativas heroicas de se explicá-la mediante a teoria da memória do solvente, a hipótese quântica das ultradiluiçõese outras possibilidades que ainda não ganharam a confiabilidade da maioria dos homeopatas, os mais interessados em desvendar os intrincados mecanismos de atuação de seus sutis medicamentos. Não importa. Resta-nos a certeza dos extraordinários benefícios que a arte da cura hahnemanniana tem proporcionado àqueles que sofrem, os quais continuam a buscá-la, confiantes em seus recursos. E no campo médico, o que vale não é ter explicações convincentes, mas sim apresentar resultados eficazes, pois quem cura tem sempre razão. Eis o que interessa ao viajante da vida e seu séquito de dores seculares.

REFERÊNCIAS

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